Prefácio
Homens.
Talvez seria essa espécie a que eu mais odeio. Não, eles não são seres humanos.
Provavelmente monstros que nos fazem sofrer como escravas. Sobrevivo dessa
espécie diferente. Meu trabalho nada menos é do que dar a eles o que eles
realmente merecem. Alguns dizem que sou perigosa. Será mesmo eu a perigosa?
Acho-me a vítima, mas cada um tem sua opinião.
Lido com
eles desde os meus treze anos. Meu pai sempre bebia e chegava em casa nervoso.
Batia na minha mãe e sempre quando podia, batia em mim e em meus irmãos. Vivi
como serva. Minha mãe então parecia uma escrava comprada. Talvez eu esteja
tendo um senso crítico muito maior do que o normal, mas essa era a realidade
que se passava na minha casa.
É
interessante que cada um saiba o que aconteceu comigo e o que me fez me tornar
o que sou hoje. Não tenho ódio, mas tenho prazer em sentir o gosto da vingança
quando estou com aqueles homens, faço deles bichinhos, insetos.
Não mexo
com espécies inocentes. 0,01% tem sim um bom senso e não são culpados por terem
nascido homens, mas procuro encontrar aquele com um ponto frágil. Ricos,
empresários, bancários, advogados, juízes, jornalistas. Todos são iguais.
Sempre com as mesmas atitudes, os mesmos extintos.
Já
perceberam como o homem faz da mulher a sua presa? Interessante não é? Mas eu faço
o contrário, faço dele a minha presa. Faço dele um coelho indefeso, um veado
correndo de um leão louco para encontrar seu bando e se salvar. O problema é
que eu nunca deixo a minha presa escapar.
Capítulo 1 - O Por que.
Na minha infância eu nunca tive luxo,
agora tenho mais do que preciso. Um apartamento grande em uma ótima Avenida de
Nova York. Televisão de plasma, sofá preto de couro. Mesa de vidro e várias
estantes brancas. O mais moderno possível.
Em cada estante uma recordação de um
golpe. Carteiras, bolas de golfe, diamantes e até algumas espadas. Samurais são
bem atrevidos em Nova York, e sempre sou eu quem acaba dando um jeito neles.
Assim como eu, você deve estar se
perguntando por que trabalho com isso. O porquê dou golpes em homens indefesos.
Na verdade, nenhum deles é indefeso e nem eu sei o que realmente estou fazendo.
Talvez protegendo mulheres que nunca tiveram esperança, traídas, e sem vontade
de viver. Atoladas em salões de cabelereiros e lojas como Dolce&Gabbana. Na
realidade essas mulheres se sentem mal amadas. Mal cuidadas.
Quando eu tinha meus 10 anos meu pai
fez uma coisa que eu jamais esquecerei. Ele olhou para minha mãe na cozinha e
em seguida veio falar comigo. Sua expressão era diferente, hoje sei que ele me
olhava com prazer “Venha comigo até o quarto Margareth.” Disse ele abrindo um belo sorriso. Inocente,
subi. Ao chegar no quarto, meu pai estava deitado na cama. Olhou para mim e
piscou. “Deite com o papai minha filha, aqui!” Ele batia a mão na cama.
Senti-me estranha naquele momento, mas deitei ao lado dele. “Papai, não estou
com sono. Podemos dormir mais tarde, hoje é sábado!” Exclamei. “Confie em mim
Maggie, eu farei você feliz.”
Eu confiei. Juro que confiei e me
sinto mal por lembrar-me disso. Meu pai colocou a mão em meu peito me
acariciando. Descia a mão cada vez mais e me olhava maliciosamente. Eu engoli a
seco e parei de respirar. O que ele estaria fazendo? Eu tinha apenas 10 anos.
Ele tocou onde não devia. Eu sabia que ele queria abusar de mim. Gritei o mais
alto que pude. Chamei minha mãe e meus irmãos. Meu pai raivoso prendeu minhas
duas mãos segurando-as com força. Olhou para mim e disse: “Eu te amo! Não farei
mal a você Maggie!”.
A raiva falou mais alto do que eu e
consegui me soltar. Peguei a primeira coisa que vi pela frente. Um canivete.
Enfiei aquilo em meu pai com tanta força que me lembro de que a cada facada. Me
lembrava da minha mãe gritando de dor, sofrendo, de meus irmãos querendo fugir
de casa, me batendo e principalmente dele tocando em mim.
Minha mãe e meus irmãos chegaram ao
quarto tarde demais. Tentaram me conter, mas não conseguiram. Meu irmão mais
velho me olhava com um olhar de agradecimento pelo que eu havia feito, mas
minha mãe não. Ela gritava como se eu tivesse feito algo de errado. Como se eu
não estivesse a defendendo. Hoje entendo que minha mãe amava meu pai e que
gostava de apanhar, assim como muitas mulheres gostam hoje.
Não fui presa porque fugi, mas tenho
certeza que se eu continuasse em casa, minha mãe me denunciaria e seria meu
fim. Entrei num mundo que eu nunca queria ter entrado. Comi restos de comida.
Alimentei paixões doentias de homens mal amados, e me tornei uma golpista.
Diria talvez a mais procurada de Nova York, mas nunca deixo que me peguem. Por
quê? Porque Não deixo provas. Não faço isso porque estou me divertindo e sim
porque de algum modo quero alimentar o meu sentimento mais louco. A vingança.
Alguns me chamariam de louca, outros
de psicopata e alguns até de assassina. Mas por quê? Se as pessoas que me
procuram são suas próprias mulheres? Elas procuram vingança, e eu, apenas
fabrico.
Gosto do que faço. Não recomendo a
vingança para ninguém. Só quem entende mesmo desse sentimento sabe como é lidar
com ele. Eu, uma ótima golpista modéstia parte sei com o que estou lidando, e
acredite, lidar com isso pode ter muitas consequências ruins.
Às vezes me pego chorando. Talvez
porque não tenho ninguém do meu lado, mas sei que há muitas coisas materiais
que podem me preencher. Compras por exemplo. Porém, queria ser normal às vezes.
Queria ter minha mãe comigo, meus irmãos, queria que meu pai nunca tivesse me
tocado. Queria que homens fossem honestos para que eu pudesse ter meu marido.
Meus filhos.
Meu telefone toca. O pego rapidamente
e atendo. Era mais uma cliente. Desta vez se chamava Sarah e queria que eu
desse um susto em seu marido. Um susto diferente dos outros. A pedido dela, eu
teria que entrar em sua casa como ladra e sair como vítima. Um dos meus casos
mais difíceis. Teria que fazer dela minha refém e segundo a mesma, eu poderia
machucá-la. De forma que seu marido percebesse o quanto ela era importante para
ele, o quanto ele precisava dela.
Era final de tarde de quarta-feira.
Peguei um táxi e fui até o local do trabalho. Um hotel, na Times Square. Entrei
no mesmo e passei-me por uma hóspede. Lilá Clinton. Sem maiores dificuldades,
fui até o balcão, peguei a chave e fui subir para o meu quarto. Seis e meia em
ponto. Identifiquei a vítima. Joshua (o marido de Sarah) estava prestes a subir
no elevador.
Entrei no mesmo instante que ele.
Levantei minha saia até um ponto em que ele pudesse ver que eu queria muito
mais do que um simples “Olá” no elevador. Joshua me perguntou se eu estava
hospedada no hotel. Respondi que sim e perguntei se ele era casado. Ele afirmou
e eu pude entrar em ação.
É claro que ele não resistiu ao meu
charme. Levou-me até seu quarto e me passou a chave do quarto. Eu mesma abri.
Entrei primeiro e larguei minha bolsa na poltrona. Fui para suíte e deitei
sobre a cama. Abri minhas pernas e esperei que ele se surpreendesse.
Ao ver minha calcinha, Joshua entrou
em delírio. Claro. Então eu o parei por um instante.
- Espere querido! - Tentei deixar um
gostinho de quero mais.
- Não quero esperar... Nenhum segundo!
- Leve-me para outro lugar! Sua casa,
o que acha?
- Nunca! Minha mulher está lá!
- Medo de desafios Joshua? - Passei as
unhas sobre minha coxa - Essa hora ela deve estar em um SPA, ou até mesmo
fazendo compras em Paris. Você não é rico? Ela não está perdendo tempo em casa
querido! Eu não perderia. - Eu mordi
meus lábios.
- Tudo bem! - Ele pareceu engolir a
seco - Vamos!
Mais fácil do que eu imaginava. Pensei
que ele fosse acabar com a minha graça quando sugeri que fossemos para sua
casa. Mas não, homem infiel aceita qualquer coisa.
Ele me levou na sua BMW conversível.
Eu o convencia cada vez mais de que estava louca para me entregar a ele naquela
noite. Passava a mão sobre o corpo dele todinho enquanto ele dirigia. Sorte
minha que não bateu o carro, porque vi em seus olhos que estava ficando louco
de prazeres por mim.
Chegamos a sua casa. Sai do carro
antes que ele e lhe fiz uma proposta irrecusável.
- Josh! - Eu sorri.
- Sim?
- Posso entrar antes e te fazer uma
surpresa? - mordi meus lábios.
- Mas eu nem sei seu nome!
- Lilá.
- Nos conhecemos hoje Lilá! Não posso
confiar!
- Como não Josh? Olha, te dou minha
bolsa exclusiva da Dolce&Gabanna, meu relógio Rolex edição limitada, meus
sapatos...
- Tudo bem, chega! - Ele acreditou na tolinha - Pode entrar! - e
me entregou as chaves.
Mais fácil do que eu imaginava mais
uma vez. Imitar a tolinha sempre dá certo. Fiquei olhando para ele com cara de quem
estava interessada, subi as escadas e abri a porta de sua casa.
- Quando estiver pronto eu te chamo “Joshzinho”.
- Gritei.
Entrei devagar e vi Sarah a esposa de
Josh sentada na sala. Ela me olhou com uma cara de dor, de tristeza, que eu
nunca tinha visto antes.
- Consegui Sarah! - Exclamei.
- Obrigada! O que fazemos agora?
- Terei que te prender nesta cadeira e
amarrá-la. Depois, chamarei Joshua e direi o quanto eu quero de dinheiro. No
nosso caso, o pagamento. Farei um corte com pouca dor no seu pulso que irá
sangrar muito e depois disso fugirei. Mas saiba que depois que eu fugir Joshua
não pode vir atrás de mim e você terá que fazer sua parte.
- E o que devo fazer? - Sarah perguntou.
- Gritar por ajuda! Chamar Joshua.
Dizer que não quer morrer. Pedir para que ele fique contigo. Assim, ele sentirá
o quando você precisa dele e o quanto ele precisa de você!
- Certo!
Sarah levantou-se do sofá e pegou uma
cadeira. Amarrei-a e peguei uma faca bem afiada. Em seguida gritei o nome de
Josh da forma mais sensual possível. Ele parecia ter vindo correndo e quando
entrou em casa simplesmente parou como uma estátua.
- O que está fazendo? - Ele gritava.
Eu dava gargalhadas e Sarah chorava desesperada. Com um marido desses, chorar
não seria difícil. Joshua tentou se aproximar e eu disse para ele não fazer
aquilo. Um passo e Sarah ficaria sem cabeça.
- Deixe-a em paz! - Josh gritava desesperado - Me pegue! Prenda-me! Mate-me!
- Não!
- Sarah gritou.
- Cale a sua boca! - eu dei um tapa em Sarah, confesso que doeu em
mim - Joshua... Joshua... Tão tolo!
- Droga! - Ele colocava as mãos na
cabeça.
- Não adianta lamentar-se agora
querido!
- Largue-a! Diga-me o que eu tenho que
fazer para que você a solte.
- O que você tem que fazer? - Pensei - Bom... Dinheiro não é problema.
Quero quinze mil dólares agora!
- Quinze mil dólares? - Joshua gritou -
Você está ficando louca! Não sou uma mina de dinheiro!
- Pague Josh! Pague! - Sarah gritava.
- Quer pagar mais caro? - Perguntei -
Posso arrancar a cabeça dela. Ou melhor, posso começar pela orelha e depois
pelo nariz...
- Pare! - Ele gritou - Certo! Quinze
mil dólares!
Ele pegou seu laptop e entrou no site de
seu banco. Fez o depósito rapidamente em minha conta. Josh me olhava assustado
sem entender o que havia acontecido.
- Pronto! Seu dinheiro já está onde
devia! Agora a solte!
- É claro! Cumpro meus tratos! - Eu
olhei para Josh com um olhar intenso, e sorri, passei a faca sobre o pulso de
Sarah.
- Não! - Ele gritou e pulou em cima de
mim.
Maldição! Estava muito fácil. Ele me
deu um murro no rosto, mas, nada que um bom chute no saco não pudesse resolver.
Levantei-me rapidamente e saí correndo pela porta. Entrei no BMW e o último som
que escutei foi Sarah pedindo ajuda a Joshua.
Corri o mais rápido que pude pela
cidade. Já eram onze da noite e parecia que tudo havia acontecido em pequenos
segundos. Parei em um caixa eletrônico de grandes retiradas e peguei uma
sacola. Tirei os quinze mil reais da conta que eu havia criado a menos de 24
horas.
Saí de lá com a sacola cheia. Abri o
capô da BMW, taquei fogo no tanque de gasolina e saí andando pela calçada.
Trinta segundos depois sinto um calor e uma explosão. Era o fim de mais um
caso. Mais um homem aprendendo a sua lição, mais uma fabricação de vingança.
Capítulo 2 -
Os Diamantes.
Acordei cansada. Fisicamente e
psicologicamente. Não é todos os dias que corto pessoas inocentes ou dou um
tapa em minhas clientes. Levantei-me e fui para a cozinha. Liguei a máquina de
café, peguei uma compressa de gelo, coloquei no meu olho roxo e liguei a
televisão.
“Good Morning America” era meu
programa favorito e estava passando. Catherine sempre dá as noticias com uma
ótima entonação. Adoro quando ela conta casos polêmicos como assassinatos,
roubos, e até sequestros. Mas tenho ódio quando o centro das atenções
tecnicamente sou eu.
“Parece que A Perigosa voltou a atacar de novo. A nossa mais nova vítima foi
Joshua Phillips.“ Dizia a jornalista. Ótimo, eu teria que mudar de novo. Odeio
quando isso acontece.
Desliguei a televisão e corri para o
interfone. Liguei para o porteiro do prédio e perguntei se havia algo para mim
na portaria. Ele disse que não. Ótimo, menos um problema. Desliguei e fui
correndo para o telefone. Não é fácil encontrar uma secretária que preste. Eu
sempre tenho que me virar com minhas próprias mãos. Liguei para o cabeleireiro
e marquei um horário.
A este ponto eu não poderia descer de
elevador. Coloquei meu jaleco preto e desci rapidamente pelas escadas. Saí do
prédio cansada. Tentei disfarçar o nervosismo. Peguei o primeiro táxi que vi
pela frente e entrei.
- Parece que já te vi em algum
lugar... - Disse o taxista intrometido.
- Dizem que eu pareço a Angelina Jolie
- Respondi.
- Não acho que você se pareça com ela -
ele disse.
- Então não sei com quem está me
comparando! - Exclamei.
Parecida com a Angelina Jolie? É o fim
do mundo. Mas eu tinha que disfarçar de alguma forma. Desci na Times Square.
Fui correndo para uma ótica arranjar boas lentes de contato. Azul? Não.
Castanho? Muito popular. Cor de mel? Perfeito!
Da ótica fui direto para o
cabeleireiro. O que eu faria no meu cabelo? Qual tipo de mecha? O que atraia os
homens naquela época? Cabelo chanel e preto. Dito e feito. Depois, um “desbronzeamento”
deixando minha pele quase branca como leite. Incrível como em horas eu
conseguiria me tornar outra pessoa.
Era dia de trabalho voluntário. Ou
seja, fazer meu trabalho por livre e espontânea vontade. Eu não estava
satisfeita com aqueles quinze mil dólares. Eu precisava de mais. Minha próxima
vitima? Paul Maker. Um banqueiro famoso de New York que no momento parece não
ter muitas companhias.
Mal ele sabia que hoje ele não iria
chamar uma prostituta e sim uma golpista. Entrei em contato há uma semana com o
bordel onde ele chama as garotas e reservei para mim o horário de hoje. Um
velho gagá como ele iria adorar uma morena branquinha, com pele quente e lábios
vermelhos. A diretora do bordel me ligou e disse o local onde ele estaria.
Hotel Livington, quarto 146. Ele já estaria me esperando.
Cheguei ao hotel animada. Dinheiro não
iria faltar. Passei na recepção e o atendente me disse que ele já me esperava.
Ótimo. Entrei no elevador e subi até o décimo quarto andar. Enquanto procurava
o quarto uma camareira ficou me olhando. Parecia que procurava algo em mim.
Olhei para ela com uma cara de “Vá cuidar da sua vida! Pobre!” E ela parou de
bisbilhotar a minha.
Encontrei o quarto e dei três batidas
bem de leve. Uma voz gritou para que eu entrasse. Entrei e tranquei a porta.
Dei quatro passos e lá estava ele. Sentado na poltrona degustando um Whisky.
Esse era Paul. O milionário de New York, na minha frente, prestes a cair em
meus pés.
- Olá! - Coloquei minha perna sobre a
mesa deixando-a a mostra - Pronto para a noite mais longa de sua vida?
- Oh lindinha! - Ele me abraçou - Dá
um beijo no papai!
Aquilo me deu nojo. Um nojo enorme.
Ele parecia meu pai falando comigo. O beijei, por mais que não quisesse.
Parecia que eu estava chupando um maracujá azedo e bem enrugado (e não
estava?). Deitei logo ele na cama. Queria acabar com aquilo o mais rápido
possível. Deixei o velhaco nu. E eu ainda estava vestida.
Ele implorava para que eu fizesse um
strip-tease para ele. Tirei meus sapatos, depois minha meia calça. Eu não podia
mais fazer aquilo. Engoli a seco. Ele lembrava muito o meu pai. Já fiz
trabalhos piores que esse, mas Paul me olhava da mesma forma que meu pai.
Eu precisava acabar logo com aquilo.
Pulei em cima dele e amarrei seus braços e pés na cama. Parecia até um
franguinho. Levantei-me e o vendei.
- O senhor vai adorar a surpresa que
eu preparei para você! - Falava enquanto
mastigava um chiclete.
- Vou é filhinha? Vem para o papai!
As palavras daquele velho soavam como
facadas em meu peito. Não aguentaria se ele me chamasse mais uma vez de
filhinha, ou falasse papai! Entrei no banheiro e lavei meu rosto. Eu era mais
forte que isso. Não iria desistir.
Saí do banheiro e fui direto para o
armário do velho. Tirei todas as roupas de seu armário e as joguei pela janela,
inclusive a que ele vestia. Comecei a procurar nas gavetas algo que me
interessasse. Encontrei um relógio. Rolex com diamantes. Parecia nunca ter sido
usado, ainda estava na caixa.
- Porque está demorando tanto minha
filhinha? - Ele gritou - Venha me
satisfazer!
Eu disse. Eu avisei a minha
consciência que não queria mais ouvir a palavra filha. Enfiei o Rolex na minha
bolsa e fui à direção daquele velho. Subi na cama e coloquei o pé no saco dele.
Pressionei levemente.
- Filha? Sou sua filha por um acaso?
- Ai como você é carinhosa! - Ele dizia - Nunca tinha pegado uma Sadomasoquista!
- Cale a boca! - Pressionei mais - Não
sou sadomasoquista! Sou muito pior do que isso vovô!
- Não me chame de vovô! Chame-me de
papai, de titio! - Ele dava gemidas de
dor.
- Papai! - Eu gritei e pressionei o mais forte que
pude, ele berrou.
Tampei sua boca antes que alguém
pudesse ouvir mais alguma coisa e piorar minha situação. Isso não era
recomendado. Coloquei a fita na boca dele e continuei procurando por coisas em
seu quarto.
Carteira, anéis de ouro. Nada muito
mais extravagante que isso. Droga! Hoje não era um bom dia de trabalho. Não
mesmo! Até que então eu avistei um fundo falso em seu armário. Dei alguns
chutes e consegui quebrar a madeira. Encontrei uma mina de ouro. A mina de ouro
que eu precisava para fazer da minha vida um luxo.
Um saco cheio de diamantes com cerca
de um centímetro cada um. Soltei uma gargalhada de felicidade. Não pude me
conter. E o velho conseguiu arrancar a fita de sua boca.
- Socorro! Socorro! - Ele gritava.
- Eu mandei você calar a boca! - Saí correndo e subi em cima dele.
- Saia de cima de mim sua vaca! - Ele continuava gritando.
- Vaca? - Dei um murro em seu rosto - E você? Mal amado... Mal cuidado... Mal
educado!
Paul tinha a voz e o olhar do meu pai.
Eu o mataria? Eu deveria matá-lo? Peguei meu telefone e liguei para Stephanie,
a mulher de Paul. Eu ainda estava sentada em cima dele.
- Stephanie? - Perguntei.
- Sim!
- Ela respondeu.
- Sou eu! - Eu ri - Estou com Paul aqui e você não vai
imaginar do que ele me chamou querida!
- Do que? - Ela perguntou rindo.
- De vaca!
- Nossa! - Ela se surpreendeu.
- Você está falando com a Stephanie?
Minha mulher? - Paul interferiu.
- É sim, a Stephanie! Pare de me
interromper nojento! - Voltei a falar
com Stephanie - Mas então Stephanie... Faço isso como trabalho voluntário ou
posso acabar com tudo isso aqui? Eu encontrei os diamantes!
- Acabe com ele! - Ela falou nervosa.
E esta foi a ultima coisa que
Stephanie falou. Matá-lo? Sim, eu tive que matá-lo, mas não poderia deixar
provas. Sacrifiquei Paul com apenas uma injeção. Coitado. Tão inocente ele
parecia ser. Stephanie tinha razão. Ela tinha que matar o marido. De um
trabalho voluntário, eu acabei virando uma milionária.
Vesti minha meia calça e meus sapatos.
Desamarrei Paul e o coloquei como se estivesse dormindo na cama. Peguei os
diamantes e as demais coisas. Fechei o armário e tranquei. Guardei a chave na
minha bolsa. Saí do quarto de fininho.
A camareira ainda estava lá, me
observando. “O que foi? Perdeu alguma coisa?” Perguntei nervosa. Ela não
respondeu e voltou a seu trabalho. Com certeza queria saber o que estava
acontecendo lá dentro. Ela deve ter escutado os gritos e com medo chamou a segurança.
Corri para o outro corredor. Não podia descer o elevador mais uma vez. Procurei
um duto de ar. Não encontrei, porém achei uma sala de equipamentos. Entrei nela
rapidamente e olhei para cima. Lá estava o duto de ar. Peguei uma chave de
fenda e desparafusei. Entrei no duto e fui engatinhando devagar até conseguir
achar uma saída.
Alguns me chamariam de louca, outros
de psicopata e alguns até de assassina. Mas por quê? Se as pessoas que me
procuram são suas próprias mulheres? Elas procuram vingança, e eu apenas
fabrico.
Capítulo 3 -
Ibiza.
Eu não queria levantar. Não depois
daquele sonho. Sonho? Pesadelo. Ele estava lá. Meu pai e me tocou novamente.
Desta vez eu estava presa, deitada em uma cama, como as minhas vítimas. Ele não
parava de repetir “Gosta disso? Suas vítimas não gostam!”.
Saí logo da cama. Eu precisava
esquecer tudo. Fui para sala, liguei a televisão e fui preparar um café. Fui
até a dispensa e abri o armário. Encontrei um bilhete. “Gosta disso? Suas
vítimas não gostam!”. Eram as mesmas
palavras que meu pai usou no pesadelo. Antes que eu pudesse me virar uma faca
entrou nas minhas costas. Eu não conseguia respirar.
Cai no chão quase morta. Via a maioria
das coisas embaçadas. Olhei para cima. Era meu pai. Ele estava lá. Rindo da
minha cara. Eu queria dizer tantas coisas para ele naquele momento, mas eu não
tinha fôlego o suficiente. Simplesmente fechei os olhos e deixei com que me
levassem.
Eu pulei da cama. Literalmente pulei.
Aos berros. Corri para o banheiro e virei-me de costas para o espelho. Eu não
estava cortada. Eu estava viva! Um pesadelo dentro do outro. Quem diria. Não
era a primeira vez. Já tive experiências muito parecidas.
Estava com medo. Pela primeira vez em
toda minha vida. Eu não conseguia me aproximar da dispensa, pois a imagem
sempre vinha a minha cabeça. E se ele estivesse lá? E se eu realmente não
tivesse o matado há 15 anos atrás? Ele com certeza voltaria para se vingar.
Uma semana depois eu estava fora
daquele apartamento. Meu novo destino? Ibiza, Espanha. Uma cidade cheia de
orgias. Ali era o meu lugar. Os mesmos bancários, jornalistas, advogados e
outros homens da alta sociedade iriam para lá, com seus jatinhos, fazer a festa
durante seus finais de semana. Era só uma semana que eu iria passar por lá.
Ganhar um dinheiro sem necessidade e depois disso, voltar para casa.
Arrumei-me o máximo que pude. Salto,
vestido curto e preto, peruca loira, lentes azuis. Tudo naquele micro
apartamento que eu havia alugado. Um lugar nojento. Mal cuidado e bem no centro
da cidade.
Saí do apartamento como uma madame.
Quem me visse sair daquele lugar com certeza iria pensar que eu era alguma mal
amada que acabou de transar com um prostituto europeu. Muito básico para o meu
gosto.
Meu espanhol estava afinado. Nada
melhor do que crescer procurando livros e lendo-os para se tornar alguém na
vida. Não tenho estudo completo no colégio, mas tenho pós-graduação no ensino
da vida.
Cheguei a uma boate. Homens por todos
os lados e de todos os tipos. Nojentos, bem arrumados, cheirosos, fedidos, mal
amados. Fui até o balcão e pedi uma dose. Tequila. A noite estava ótima. Eu
precisaria de um ótimo incentivo. Peguei a primeira dose e virei. Magnífico.
Nada melhor do que a boa tequila espanhola. A melhor do mundo em minha opinião.
Um homem jovem se aproximou. Maldição.
Sentou-se do meu lado e parecia me comer com os olhos. Pedi mais uma Tequila e
olhei de canto para ele. Olhos azuis, loiro, lábios carnudos. Que mulher não
seria seduzida por ele? Ele estava me dando bola. Talvez se ele fosse de algum
tipinho rico eu até poderia dar um golpe nele. Então, entrei em ação.
Passei as unhas sobre o balcão e virei
mais uma dose de Tequila. Desta vez, olhei para ele nos olhos. Ele retribuiu o
olhar com um sorriso.
- Nova em Ibiza? - Perguntou-me.
- Sim! Na verdade, só vim passar
alguns dias. Esfriar a cabeça!
- Interessante! - Ele estendeu a mão -
Muito prazer, eu sou Gabriel!
- Margareth! - Peguei em sua mão
cumprimentando-o.
- O que uma bela dama faz sozinha
nesta boate? - disse sorrindo.
- Uma bela dama? - Eu abri um sorriso, ele parecia querer ser
um cavalheiro, ora, que belo, talvez eu devesse acreditar realmente nele - Que
cavalheirismo de sua parte me chamar de dama. – Olhei-o nos olhos – Bom, na
verdade estou aqui para me divertir. Afinal, a noite é uma criança! – mordi meu
lábio enquanto o olhava.
- Se divertir? Não é Espanhola creio
eu!
- Não! Sou Americana, mas, amo a
Espanha. Considero minha segunda casa.
- Que interessante! E porque sua
segunda casa?
- Na verdade, meu pai é um grande
empresário americano e sempre está atrás de alguns eventos aqui na Espanha.
Passei parte da minha infância aqui. Nada além de uma dança espanhola. – dança
espanhola, que clichê. Eu precisava estudar mais sobre isso.
- Um pouco clichê de sua parte dançar
dança espanhola! Mas acho interessante! Poderia dançar para mim?
- Agora? – entrei em pânico.
- Sim! Agora! – ele abriu um sorriso –
Sempre tive curiosidade em saber como se dançava. Eu, um espanhol legítimo não
faço a menor ideia de como se dança. Não consigo!
- Não! Agora não! – abri um sorriso
envergonhado. Maldito, pensei – Tenho vergonha, não posso dançar aqui!
- Ora, que pena! Adoraria te ver
dançar. – disse pegando em minha mão.
- Imagino! Mas prometo que um dia
dançarei – o que? Um dia dançarei? Eu não estava pensando.
- Você tem olhos lindos! – ele colocou
a mão no meu rosto observando meus olhos.
- Obrigada! Mas olhe quem fala... Seus
olhos azuis. Muito mais bonitos do que os meus! –eu fiquei envergonhada.
- Mas seus olhos são azuis! Um pouco
mais escuros que os meus, mas ainda assim belíssimos! – ele não tirava o
sorriso do rosto.
- Não! Meus olhos são castanhos! – ele
fez cara de espanto e então eu me lembrei que estava de lente.
Aquele homem estava me causando
problemas. Eu não conseguia me concentrar e estava literalmente desmanchada por
ele. Não falava direito e ao menos pensava. Maldito. Homem nenhum me tratou
daquele jeito antes. O que eu poderia fazer? Levá-lo para a cama e simplesmente
roubá-lo?
Todos os homens com quem eu já
trabalhei nunca se comportaram de tal modo. Eu não poderia machucá-lo! Parei.
Pensei. Eu estava desenvolvendo sentimentos. Eu não podia me apaixonar por ele,
nem ao menos podia achá-lo legal. Eu ia cumprir meu trabalho. Custe o que
custasse.
- Desculpe, mas não estou entendendo
você! – ele fez cara de espanto.
- Eu que lhe peço desculpas! Na
verdade, tenho olhos castanhos! – consegui concertar meu erro – Mas estou
usando lentes hoje. Havia me esquecido. Esta tecnologia está tão avançada que
você nem sente mais nada em seus olhos.
- Ah sim! Entendo! – ele deu risada –
Mas para ser sincero, não acho graça em olhos claros. Gosto dos escuros.
Castanhos, ou cor de mel.
- Interessante seu gosto! Diferente de
todos que eu já vi! Nunca conheci ninguém que admirasse olhos castanhos!
- Creio que sou um homem um pouco
diferente.
- Diferente o bastante para seduzir
uma mulher, creio eu.
- Está interessada em mim?
- Não devo contar o que penso sobre
você! – abri um sorriso.
- E eu? Será que eu devo contar o que
penso sobre você? – ele dava um sorriso
de canto.
- Não sei! Talvez o que você diga faça
alguma diferença. – eu o comia com os olhos desta vez.
- Penso que adoraria passar esta noite
com você! Te conhecer melhor. O que acha? Podemos ir a um lugar mais reservado.
Um restaurante talvez!
- Acho uma belíssima ideia! Não creio
que parte deste muquifo esteja aos meus pés.
- Eu sabia que você era algo maior do
que alta sociedade.
- Hã? – eu não havia entendido.
- Nada! Vamos! – ele pagou minhas
doses de tequila, pegou na minha mão e foi em direção a porta da boate.
Ele queria me conhecer melhor... Me
conhecer melhor até que ponto? Aquele homem, garoto, jovem, não sei dizer. Ele
era uma mistura de tudo. Maduro, jovial e simpático. Não imaginava que
existissem homens desse tipo. Muito menos que fosse encontrar um Espanhol com
tais características.
Tudo estava só começando, a noite
parecia ser longa. Ele me levou na sua Mercedes. Um carro divino, que eu
particularmente gostaria de ter uma coleção. Entramos em um restaurante cinco
estrelas. “Pardon”. Ele estava me levando em um lugar de nível. Era rico com
certeza. Nos sentamos à mesa e ficamos observando o cardápio.
- Gosta de lagosta? – perguntou.
- Particularmente? – eu escondi minha
boca no cardápio – Eu amo! Odeio ser indelicada, mas acho que devo ser sincera.
- Gosto de mulheres assim! – ele abriu
um sorriso – Por Favor, garçom! Uma lagosta! Mande o Chef. Vitorrio preparar a
melhor lagosta que ele já fez em sua vida! – o garçom anotou o pedido e saiu.
- A melhor lagosta? É um bom freguês
deste lindo restaurante, creio eu.
- Na verdade sou o dono!
- Dono? – espantei-me – Interessante!
Pela primeira vez conheço alguém cujo seu grande negócio é um restaurante.
- Pois é! Amo comida! Sou um Chefe.
Mas, preciso me cuidar. Se eu ficar atrás da bancada preparando refeições eu
não resistiria e levaria tudo isso a falência.
- Alimenta-se bem então...?
- Muito bem! – ele abriu um sorriso.
- Mas então, conte-me mais sobre você!
Nasceu onde?
- Nasci aqui mesmo, em Ibiza. Meus
pais vieram morar aqui logo quando se casaram. Minha mãe é Holandesa e meu pai
Norueguês. Uma mistura um tanto estranha, creio eu, mas ainda assim, são ótimas
pessoas e eu gosto daqui.
- Que incrível! Sou descendente de
Belgas. Meu bisavô era belga.
- E você nasceu nos Estados Unidos? Um
pouco clichê! Belgas não são muito familiarizados com os americanos.
- Eu sei! Faço ideia de todo este
problema. Meu avô era refugiado de alguma guerra idiota que eu não faço a
mínima questão de saber. Mas, o que sei é que minha mãe casou-se com meu pai.
Um americano. E logo depois fugiu para “A terra onde todos sonhos acontecem” Ou
seja, New York, porém, nasci em Las Vegas em uma viagem curta.
- Las Vegas? Interessante! Viciada em
algum tipo de jogo?
- Nenhum! Apesar de ter nascido na
cidade do Cassino, não gosto. Acho perda de tempo.
- Vou ter que discordar com você! Amo
Cassinos. São uma ótima distração.
- Acho mais uma perda de dinheiro se é
que me entende... – retruquei.
Eu nunca tive uma conversa de rendesse
tanto com qualquer vítima. E não consegui compreender como estava me dando bem
contando aquele monte de mentiras! Seriam histórias que eu nunca mais teria que
lembrar, afinal, tudo aquilo era para durar uma única noite. Não é?
Capítulo 4 -
Louis.
Gabriel estava caindo no meu joguinho.
Ficou louco por mim, mas, diferente dos outros não pediu meu telefone e me deu
o dele. Pediu para que eu ligasse quando quisesse vê-lo de novo. Eu, com
delicadeza disse que ligaria em breve. Mas era ai que o problema estava só
começando.
Eu não havia decorado nenhuma das
histórias e nem informações que eu contei a ele. A não ser que meu pai era um
empresário, fora isso, não me lembro de nada. E se no próximo encontro ele me
perguntasse algo?
Já não conseguia trabalhar como antes.
Eu estava deixando falhas em todas as partes. Entregando meu real nome,
contando histórias banais e não decoradas, mas acima de tudo, fazendo com que
aquele homem me dominasse.
Precisava pensar bem. Revisar todos os
meus golpes. Não posso desenvolver sentimentos, até porque nem sei quais são
eles. Não sei como é amar. Muito menos o que o amor nos causa. Nunca senti
saudade. Dizem que é quando você sente falta de uma pessoa e que seu coração
pode até chegar a doer. A única coisa, o único sentimento que eu poderia dizer
que entendo muito bem é a raiva.
Raiva pode parecer algo ruim, mas para
mim, que não conheço nenhum dos outros sentimentos é como se ela me
completasse, tomasse conta de mim. É um prazer inigualável que só eu sinto.
Muito melhor que dinheiro, e creio que é muito melhor do que amor.
Sinto raiva do meu suposto pai que
sempre fez questão de beber e certo dia me tocou de modo diferente. Sinto raiva
da minha suposta mãe que quando me viu ali, salvando a nossas vidas ficou com
raiva de mim, mas hoje eu ganho. Tenho muito mais raiva e ódio por ela do que
ela poderia ter por mim.
Meus irmãos nunca tiveram culpa de
nada, mas também nunca foram presentes. Nunca foram carinhosos. Como eu
gostaria de saber o que é carinho, e acho que é por este motivo que não sinto
saudade, falta, ou qualquer coisa do tipo.
O importante é que hoje minha vida é
outra e não tenho que pedir nada a ninguém. Até conhecer o Gabriel pelo menos.
Eu precisava de alguém que fosse um guardião, um segurança. Alguém que pudesse
me ajudar a resolver as questões sobre as casas que eu iria frequentar, a
arrumação da mesma, roupas, em fim. Eu precisava de alguém ali comigo.
Clarice foi uma das primeiras mulheres
que me ensinou a arte dos golpes. A conheci quando eu comecei a trabalhar no
bordel. Ela era a dona daquela nojeira, mas, mesmo assim soube me ensinar a
como tratar os homens. Como eles se atraíam, do que gostavam, o tamanho dos
seios, atitudes na cama, tudo o que você possa imaginar.
Nessa mesma época ela não trabalhava
mais no bordel e sim com golpes. O bordel era um hobby para ela. Uma diversão.
E certa vez Clarice citou um nome dizendo: “Quando você realmente precisar se
organizar chame-o” e me entregou um cartão.
Louis. Europeu e muito bem sucedido.
Grande mordomo. Já trabalhou até na família real e acredite, se demitiu por
pura vontade. Guardei aquele cartão na minha carteira.
Apesar de sete anos terem se passado o
número era o mesmo. Louis atendeu e aceitou o meu pedido. Quando perguntei
sobre o seu salário ele simplesmente me interrompeu e disse que eu não devia
tocar naquele assunto agora e que estava se direcionando para Ibiza
imediatamente.
Parecia FedEx. Mandou, chegou. Rápido
o bastante ás oito horas ele estava batendo na porta do meu velho apartamento.
Atendi de roupão e com os olhos pequeninos. Elegante, conservado, bonito,
charmoso. Este era Louis. Apesar de aparentar uns 80 anos, ele tinha elegância.
Comportava-se como um gentleman.
Não sabia como me comportar na frente
dele, muito menos o que falar ou o que perguntar. Pedi para que ele se sentasse
e fiquei olhando para ele como uma criança que nunca havia visto um doce:
- Margareth certo? – perguntou-me
Louis.
- Sim! Mas prefiro que me chamem de
Maggie.
- Maggie? Prefere? Pensei que você
vivesse sozinha, sem amizades ou envolvimento amoroso.
- Na verdade não tenho amizades, nem
envolvimentos, mas não gosto de Margareth, prefiro Maggie.
- Maggie. Não acho uma boa escolha,
mas, se é assim que a senhora quer ser chamada...
- Pode me chamar de você. Senhora não,
por favor!
- Sinto muito! Estou acostumado a
chamar todas as mulheres que eu trabalho de senhora. Então, peço desculpas se
chamar você de senhora mais alguma vez.
- Não se preocupe Louis!
- Bom, vamos ao que realmente
interessa! Se me chamou, quer dizer que está tendo problema com seus golpes.
Acertei?
- Na verdade quase isso. Estou
desenvolvendo sentimentos por uma das minhas vítimas e tecnicamente isto não é
uma boa ideia!
- Por um acaso já aplicou algum golpe
nesta vitima?
- Não, nenhum. Por quê? – estranhei a
pergunta de Louis.
- Porque não se arrisca a amar? Talvez
seja bom para você!
- Eu nunca amei Louis. Não sei o que é
amar. Tenho medo de amar. A raiva e a vingança me fazem sentir um sentimento
tão bom, que tenho medo de perdê-los.
- Nunca amou? Que espécie de ser
humano você é?
- Com certeza um ser humano que nunca
viveu realmente. Clarice não te falou sobre mim? Minha história?
- Margareth certo? Maggie... – ele
pensou por uns segundos Mas é claro!
Clarice me falou de você! Incrível! Você ainda esta viva, depois de todo esse
tempo trabalhando no bordel...
- Na verdade, agora sou independente!
Apenas eu, e eu!
- E mora neste muquifo há muito tempo?
– ele mostrou seu lado afetado.
- Na verdade não! Morava em Nova York,
mas tive um problema com uma cliente. Então, resolvi passar uns tempos aqui em
Ibiza. Tentar algo diferente, uma nova vida.
- Certo... Você tem bastante dinheiro.
Não tem?
- O necessário!
- Então comece comprando uma ótima
casa. De preferência uma mansão, algo bem bonito, um local um pouco longe da
cidade, mas capaz de te dar lazer.
- Não conheço muitas coisas por
aqui... Na verdade nada!
- Certo! Deixe comigo Margareth! Se
puder confiar em mim, creia que eu irei te ajudar a arranjar tudo o que
precisar em 24 horas.
- 24 horas? – me espantei.
- Sou um profissional Margareth!
Trabalho com isso há 50 anos.
- Certo Louis. Procure tudo para mim
então!
24 horas. Seria tempo o bastante para
Louis? Seria. Em menos de 24 horas eu estava morando em uma casa divina, toda
decorada e com uma vista incrível para um dos lagos mais lindos de Ibiza.
Eu podia confiar em Louis. Clarice foi
uma das pessoas que mais me ajudaram e se Louis pode ajudá-la, com certeza me
ajudaria também. Só não entendi muito bem quando ele disse que eu deveria me
arriscar e cair nos braços da vitima que eu estava desenvolvendo sentimentos.
Tão estranho! Será que amar é tão bom?
Não sei se amo o Gabriel. Só tenho
pena de fazer mal a ele. Medo de machucá-lo, prejudicá-lo. Será que Louis tem
razão? Será que eu realmente o amo?
Capítulo 5 -
Tequila.
Passei a noite em claro. Revirei-me na
cama durante horas. Abracei meu travesseiro desejando que fosse o Gabriel que
estivesse ali. Eu tinha o desejo de telo comigo! Tinha desejo de abraça-lo,
usa-lo, beija-lo, transforma-lo em alguém só meu.
Gabriel não parecia ser um homem ruim.
Louis tinha razão, me apaixonei, mas ainda não é o bastante para deixar minha
carreira de lado. Continuarei me vingando de quantos homens eu quiser, até que
a minha conta no banco fique grande o bastante e satisfaça todos os meus
prazeres.
Levantei da cama com olheiras
gigantes. Meus olhos estavam inchados e o sono havia acabado de bater. Fui em
direção à cozinha e quando passei pela sala de jantar vi uma mesa linda de café
da manhã. Bolos e chocolates exalavam um cheiro delicioso. As frutas e sucos me
davam água na boca.
- Bom dia Ms. Margareth! – Louis
entrou na sala de jantar.
- Bom Dia! – falei ainda pasma com a
mesa – Isso é o que?
- Seu café da manhã!
- Isso é um café da manhã? Parece mais
um banquete Louis! Você é incrível!
Sentei-me a mesa morrendo de vontade
de devorar tudo o que existia naquela mesa. Comi o melhor bolo da minha vida.
Minha boca estava aguada só de olhar para uma torta holandesa.
- Você parece uma criança Ms.
Margareth! – Louis me observava.
- Louis sente-se aqui! – eu puxei uma
cadeira.
- Diga Ms. Margareth!
- Maggie! Me chame de Maggie! – Louis
sentou-se ao meu lado – Eu nunca tive um café da manhã como este. Na verdade,
nunca tomei café da manhã. Quando eu era criança, meus pais não tinham dinheiro
o bastante para manter três filhos e muito menos para nos dar todos os
privilégios que merecíamos! Entendeu porque pareço uma criança? Eu não tive
infância!
- É triste ouvir isso Ms. Marga...
Quero dizer, Maggie!
- É triste, mas nem eu, nem você temos
culpa disso! E mais uma vez Louis, obrigado por estar me ajudando! – abracei-o
e dei um beijo em sua bochecha caída.
Louis não parecia fazer muito contato
com as pessoas. Ele foi capaz de estranhar meu abraço e estranhou mais ainda o
meu beijo. Louis parecia meu avô. Aquela pele fininha, seu rosto idoso com seus
cabelos grisalhos. Um senhor esbelto e alto. Louis me dava segurança. Me
passava confiança.
- Maggie! Tenho uma vitima para você!
- Mais já Louis? – espantei-me.
- Bernardo Rizzo! Precisamos pagar a
piscina da casa!
- Uma piscina? Iremos construir uma
piscina?
- Sim Maggie! Já ouviu falar em
conforto e lazer?
- Algumas vezes...
- Pois bem, Bernardo é um homem muito
rico e jovem, já foi capaz de abusar de muitas garotas nos Estados Unidos e
estará passando esta semana por Ibiza, em uma festa da alta sociedade... Essa é
a sua chance!
- Ele abusou de muitas garotas? Ótimo!
Já sei o que farei com ele. Este vai ser um dos meus melhores casos! – comecei
a gargalhar.
Se existir algo que eu não tolero, é
abuso! Depois de extremas pesquisas durante a tarde toda, vi que Bernardo Rizzo
era filho de um dos homens mais ricos do mundo, ou seja, um garoto que se
sentia poderoso e capaz de ter tudo o que queria nas mãos.
“Moony Palace” era o nome do hotel
onde iria ser a festa. Desta vez, era necessário um traje social o bastante que
mostrasse que o dinheiro estava do meu lado. Peruca preta de cabelos compridos
e franja reta, lentes azuis, batom vermelho e um vestido preto de cetim,
sapatos e bolsa prada. Louis alugou uma limusine para me levar até a festa. Não
seria necessário buscar. Da festa eu já sairia com Bernardo na palma da minha
mão.
Desci da limusine me sentindo
poderosa. Respirei fundo e joguei meu cabelo para trás. Olhei para os lados e
percebi que todos os homens olhavam para o meu corpo e se perguntavam “quem é aquela
bela mulher morena de olhos claros?”, enquanto as suas mulheres me invejavam e
diziam que tudo não passava de plástica.
Entrei na festa e fui logo pegando uma
taça de champanhe. Andei pelo salão a procura do meu alvo. Por enquanto, nada.
Direcionei-me até o balcão e fiquei observando o movimento.
Tempo depois senti alguém fungando no
meu pescoço. Olhei para o individuo e percebi que não precisaria correr atrás
do meu alvo, ele viria até mim. Bernardo estava ao meu lado, preste a me passar
uma cantada chula.
- O que uma mulher tão bela faz
sozinha neste balcão? – perguntou-me Bernardo.
- Espero um homem como você vir
conversar comigo... – dei um sorriso de
canto.
- Muito prazer, Bernardo! – ele pegou
minha mão e beijou-a.
- Prazer, Mich!
- Incrível como seus olhos são lindos!
– ele me admirava.
- Obrigada! – eu sorri, virei-me para
o balcão e pedi uma dose de tequila.
- Tequila em uma festa destas?
- Não existe hora nem lugar para tomar
tequila! – exclamei.
- Você está certa! – ele pediu uma dose
tequila também.
- Não pense que vai me conquistar
copiando e aprovando minhas atitudes Bernardo!
- O que devo fazer para te conquistar?
– ele mordeu minha orelha.
- Em primeiro lugar, tirar seus dentes
da minha orelha! – ele se afastou rapidamente.
- Você não esta interessada em mim...
Certo?
- Estou sim, mas o que seria da sua
persistência se eu não fosse difícil? – eu mordi meu lábio.
- Você já provou para mim que é
difícil o bastante! Agora venha comigo... – ele pegou na minha mão.
- Espere! Ainda não bebi minha
tequila...
- Não beba ainda!
- Porque? Qual o problema?
- Duvido que você seja capaz de tomar
essa dose!
- O que ganho em troca se eu tomar
direto? – olhei para ele e dei um sorriso maroto.
- Deixo você fazer tudo o que quiser
comigo!
Eu virei o copo de tequila. Muito mais
fácil do que eu pensava. Mal ele sabia que este “Deixo você fazer tudo o que
quiser comigo” iria lhe causar tantos problemas. Pobre Bernardo! Passamos o
resto da festa juntos conversando. Ele iria apresentar algumas ideias para os
convidados e logo após disso prometeu levar-me a um restaurante. Restaurante
aquele que não era bem um restaurante.
Bernardo me levou para a sua mansão em
uma Ferrari vermelha, capaz de ofuscar qualquer carro a sua volta. Sai da
Ferrari desfilando pelo jardim de sua mansão, Bernardo veio logo atrás de mim e
me abraçou por trás, mordendo meu pescoço e passando suas mãos sobre o meu
corpo. Ele estava louquinho para que eu fizesse o que eu quisesse com ele. Mal
ele sabia que tudo isso não ia acabar bem.
Entramos na mansão e ele foi logo
colocando uma música lenta para aumentar o clima. Foi até o bar, pegou uma
garrafa de tequila e veio em minha direção.
- É toda sua! – ele sorriu.
- Obrigada, mas não quero a garrafa
inteira! – peguei o copo que estava na mão dele e deixei a garrafa com ele.
- Já não aguenta mais tequila? - ele
mordeu meus lábios.
- Não e você? Aguenta? - mordi meu
lábio.
- Aguento, mas não quero tequila,
quero você!
Bernardo jogou a garrafa de tequila no
chão e me jogou no sofá, nem ligou para o barulho da mesma se quebrando em
pedaços. Tirou seu paletó e sua camisa. Veio por cima de mim dando beijos no
meu pescoço e indo até minha boca. Eu sentia nojo quando ele tocava meu corpo.
Fui tirando meus sapatos enquanto ele passava as mãos nas minhas coxas subindo
meu vestido até que ele pudesse tira-lo. Peguei na nuca dele e mordi seu lábio.
O nojo continuava. Subi por cima dele e o deixei deitado no sofá. Levantei meu
vestido e o joguei para o lado. O nojo nunca me fizera ganhar tanto dinheiro,
sorri quando pensei.
Tirei o cinto dele e coloquei por trás
da sua nuca puxando-o para perto de mim e o beijei. Bernardo já estava na palma
da minha mão. Continuei puxando ele pela nuca até chegar a uma pilastra, tirei
meu sutiã e peguei o cinto para amarrar as mãos dele e prende-las.
Ele parecia gostar da brincadeira.
Gritava “Quer brincar não é? Brinca comigo! Brinca!”. Ele pediu. O que mais eu
poderia fazer? Coitadinho, ia sofrer tanto! Mandei ele esperar uns instantes
enquanto eu me preparava, fui até minha bolsa e tirei uma faca. Fui até ele
mostrando meu novo “brinquedinho”.
- O que vai fazer com isso? - Ele perguntou espantado.
- Não sei... Estou pensando ainda! - Me
aproximei dele e passei a ponta da faca pelo seu abdômen.
- Não seja louca! Você não vai fazer o
que eu estou pensando que vai, não é?
- O que você acha que eu vou
fazer? - Dei um sorriso sarcástico - Esqueceu
o que você me disse hoje mais cedo?
- O que eu disse? - Ele gritava.
- Vai com calma querido. Não precisa
gritar. “Deixo você fazer tudo que quiser comigo!” – falei imitando o tom de
voz de Bernardo - Trato é trato!
- Não! Isso não foi um trato!
- E quando você abusou daquelas
garotas? Foi um trato ou elas nem puderam escolher? - Eu coloquei a faca
encostada no pescoço dele.
- Que garotas? Eu não abusei de
ninguém!
- Que mentira! - Passei a faca dando o primeiro corte sobre
a barriga dele.
- Maldita! - Ele gritou e em seus
olhos começavam a surgir lágrimas.
- Diga-me Bernardo... Elas escolheram
ou você abusou delas? Elas choraram como você?
- Não abusei!
- Resposta errada... - Passei a faca mais uma vez sobre a sua
barriga.
- Chega!
- Você só tem mais uma chance... - Eu olhei com cara de dó para ele - Elas escolheram, ou você abusou delas?
- Eu não abusei!
- Que peninha! Errou de novo “Beni”?
Você não aprende não é? - Enfiei a faca
em seu braço, ele berrou de dor.
- Certo! Chega! Chega! Eu abusei sim
das garotas, mas porque elas em algum momento se ofereceram para mim, elas não
são santas!
- Muito menos você...
- Me tira daqui sua vaca!
- Que palavreado mais horrível! Quer
que eu te solte? Tudo bem! - Agachei e
peguei nos pés dele, fiz um corte em cada um dos calcanhares dele. Bernardo não
ia conseguir andar com seus músculos do pé cortados.
- Me solte sua vadia!
- Certo! - Cortei o cinto que prendia
a mão dele no meio, e o soltei, me afastei rapidamente e subi as escadas da
mansão.
Entrei no primeiro quarto que vi e
comecei a procurar em todas as gavetas. Qualquer tipo de joias, dinheiro, ou
documentos serviriam para pagar todo o meu esforço. Encontrei algumas coisas, e
fui seguindo a diante procurando em outros quartos. Entrei um quarto que
parecia ser o de Bernardo. Vasculhei gavetas cheias de revistas pornôs e fotos
de algumas de suas vítimas. Peguei fotos para provas e arquivo pessoal.
Abri o armário e joguei todas as
roupas no chão. Ali estava o incrível cofre. Sem pensar duas vezes fui
rapidamente descobrindo o código e consegui abri-lo. Bolos de dinheiro e pedras
preciosas existiam em enorme quantidade. Peguei uma bolsa que estava naquele
armário e joguei tudo dentro dela. Em apenas alguns minutos eu devia ter
arrecadado 200 mil dólares entre joias, cartões e dólares.
Desci as escadas com a bolsa e vi
Bernardo jogado no chão e jorrando sangue, ligando para alguém. Corri e chutei
o celular da mão dele. Nem ouse tentar se vingar! - Gritei. Vesti meu vestido
rapidamente e peguei a chave da Ferrari do seu bolso. Adeus!
Sai pela porta da frente correndo em
direção a Ferrari. Vi alguém chegando e se aproximando de mim. Tirei minha
peruca e joguei para trás tentando acertar o individuo. Entrei na Ferrari e
tranquei as portas. O homem batia nas janelas e gritava. Assustada, joguei a
bolsa no banco de trás e liguei o carro, dei uma rápida olhada pela janela e
percebi que eu conhecia aquele homem de algum lugar. Ele não me era estranho.
Bati no vidro tentando espanta-lo e acelerei a Ferrari.
Corri o mais rápido que pude e senti a
adrenalina sobre as minhas veias. Aquela sensação era extremamente intensa e
gostosa. Dava-me prazer por tudo o que eu tinha feito. Com o tempo fui
diminuindo a velocidade e lembrando-me do que havia feito.
A imagem do homem na janela me deixou
assustada. Foi como se minha memória fotográfica tivesse tirado uma foto
daquele homem. Aquele homem que não era qualquer homem. Era Gabriel! Era ele
que estava batendo no vidro da janela! Não podia ser possível. Se ele conseguiu
ver meu rosto eu estou completamente perdida.
Capítulo 6 - Gabriel.
Passei a noite em claro novamente.
Revirei-me na cama durante horas. Abracei meu travesseiro desejando que Gabriel
que estivesse ali. Não conseguia compreender qual era o meu problema nem qual o
meu real sentimento por ele. Levantei de manhã com olheiras gigantescas e um
humor horrível.
Fui para sala, liguei a televisão e
fiquei olhando para o jardim. O sol ultrapassava o vidro e tocava minha pele.
Depois de Gabriel, o sol era a única coisa que fazia eu me sentir
despreocupada. Quando o calor toma conta da minha pele e me deixa relaxada.
Melhor ainda é quando Gabriel toca meus lábios nos seus. Chega! Cansei de
pensar nele.
Louis percebeu que eu havia acordado
cedo demais e preparou a mesa de café. Mais uma vez eu via comida que não
acabava mais.
- Acho que você não precisa exagerar
tanto da próxima vez! – Disse para Louis observando a mesa.
- Você tem direito a tudo isso Maggie!
- Mas é desperdício Louis! Acredito
que outras pessoas precisam mais disso do que eu.
- O que aconteceu com a Sra. Maggie?
- Ontem eu vi o Gabriel!
- Como? – Louis perguntou espantado –
Você não havia marcado nada com ele que eu saiba!
- Eu fui dar o golpe no Bernardo ontem
à noite – contei todo o ocorrido – e Gabriel estava ali. Na minha frente! Foi
assustador. Só percebi depois de um tempo e estou torcendo para que ele não
tenha me visto!
- Você está correndo muito risco
estando apaixonada por este homem Sra. Maggie!
- Eu sei Louis, mas não consigo me
concentrar direito!
- Você deve escolher entre continuar
dando golpes ou se render ao homem que ama... A escolha é somente sua Maggie!
- Meu Deus! O que devo fazer?
O meu telefone celular tocou. Era
Gabriel.
- E agora Louis? O que eu faço?
- Atenda! – respondeu ele.
- Ai! – respirei fundo – Alô?
- Maggie?
- Sim! – Eespondi.
- Aqui é o Gabriel!
- Olá Gabriel! Como está?
- Estou bem, apesar de algumas coisas
e você Maggie?
- Estou bem! – Eu não conseguia
segurar o nervosismo. Minha garganta estava seca.
- Maggie, eu preciso te encontrar
urgentemente!
- É... Para que?
- Preciso conversar um assunto muito
sério com você! – Ele parecia nervoso – Quer almoçar comigo no “Stacy”?
- Tudo bem!
- Te encontro lá às 14h. Até logo!
- Até! – respondi e desliguei.
Ele me viu! Só pode! Olha o jeito que
ele me tratou no telefone. Nem foi carinhoso comigo... Nem me ligou outras
vezes. Ele apenas me ligou hoje porque me viu ontem, tenho certeza! Estou
entrando em pânico!
- Que cara é essa Sra. Maggie? –
perguntou Louis.
- Gabriel disse que precisava falar
comigo urgentemente!
- E o que a Sra. Falou?
- Eu disse que tudo bem e marquei um
almoço com ele...
- Não Sra. Maggie! Você não devia ter
feito isso!
Depois de ficar ouvindo Louis me
dizendo que eu não deveria ter marcado tal encontro com Gabriel, eu fui me
arrumar. Eu não sabia o que vestir. Olhei para o meu closet e não sabia o que
escolher. Tantas roupas. Tantas opções! Peguei um vestido azul marinho e um
sapato de salto branco. Coloquei minha peruca loira e minhas lentes, afinal,
foi assim que Gabriel me conheceu.
Peguei meu carro e fui em direção ao
restaurante “Stacy”. Não consegui parar de pensar no que Gabriel iria me falar.
Quais seriam as perguntas que ele iria me fazer. Eu estava perdida. Ele nunca
iria me perdoar por machucar aquele amigo idiota dele. Mal ele sabia que
Bernardo era um pedófilo que abusava das inocentes e mesmo que eu tentasse
dizer a verdade, Gabriel não iria acreditar em mim.
Cheguei ao restaurante. Entrei e
sentei em uma mesa a espera de Gabriel. Minhas pernas tremiam, meu coração
palpitava e minhas mãos suavam. Depois de algum tempo ele apareceu. Deu-me um
beijo no rosto e sentou-se comigo.
- Como está Margareth? – Ele abriu um
sorriso.
- Estou bem! E você Gabriel? – Correspondi
o sorriso.
- Estou bem também! O que vamos pedir?
– Ele pegava o cardápio e escolhia alguma coisa.
- Não faço a menor ideia. Pode
escolher o que quiser, eu não me importo...
- Sério Margareth?
- Maggie, por favor!
- Realmente não sei! – Ri envergonhada
tentando disfarçar meu nervosismo.
- Sim! Bom, então vou pedir algo muito
bom. É meu prato predileto e acho que você irá gostar!
- Gabriel...
- Sim!
- O que você queria tanto falar
comigo? – Perguntei ansiosa pela resposta.
- Na verdade... – Ele deu um sorriso
de canto. – Eu só queria te ver! Isso só foi uma desculpa...
- Sério? – Eu respirei aliviada.
- Sim! Estou gostando muito de você
Maggie! – Ele colocou sua mão sobre a minha e abriu um sorriso.
- Também estou gostando muito de você
também! – Eu correspondi o sorriso mais uma vez.
Nunca me senti tão aliviada. Que lindo
esse Gabriel... Ele disse que está gostando muito de mim. Quase me derreti
inteirinha ali, na frente dele. Mas precisava me controlar para não beija-lo ou
dizer que o que eu realmente sentia por ele podia ser amor.
Ao mesmo tempo em que eu queria
beija-lo, eu sabia que em algum momento eu deveria contar a ele toda a verdade.
Meu medo era acabar com toda aquela sensação gostosa que eu sentia ao estar
perto dele. Gabriel parecia ser diferente dos outros homens. Ele era o único
homem que eu consegui sentir desejo. Desejo de beija-lo. Desejo de leva-lo para
cama. Desejo de me casar. Desejo de viver eternamente com ele.
Conversamos sobre milhares de assuntos
durante o almoço. Ele me contou diversas histórias sobre sua família. Ele era
realmente o homem perfeito. Mas talvez não o homem perfeito para mim.
As horas foram passando e nós dois
continuamos conversando. Já eram quase seis horas da tarde e nós dois ainda
estávamos lá. Se não fosse o trabalho do garçom de nos dizem que teríamos que
sair porque eles iriam servir o jantar, nós dois nunca teríamos ido embora.
Gabriel me convidou para ir até a sua
casa. Eu não pude perder a oportunidade e aceitei. Era uma mansão linda. Bege e
com alguns toques antigos. Ao entrar fiquei espantada com a sua imensidão e a
decoração. Nunca tinha visto um lugar tão lindo. Apesar de grande, a mansão
parecia aconchegante. Ele me convidou para sentar na sala de visitas para
conversarmos um pouco mais.
A noite foi indo e o tempo esfriando.
Gabriel era um cavalheiro. Ele acendeu à lareira, pois havia percebido que eu
estava morrendo de frio. Depois disso, sentou-se ao meu lado e com um
disfarçado espreguiçar ele envolveu seus braços em meu ombro. Virei meu rosto e
o olhei nos olhos dele. Não pude resistir. Fui devagar encostando meus lábios
no dele e antes que eu pudesse perceber nós já estávamos nos beijando!
Gabriel me abraçou enquanto deslizava
seus lábios nos meus. Foi lindo. Eu nunca havia beijado alguém por vontade
própria. Nossa! Que sensação perfeita, gostosa, prazerosa! Passei a mão sobre
as costas dele e fui deslizando com as minhas unhas sentindo cada músculo de
seu corpo. Gabriel me dava tesão. Apertei-o com vontade. E sem mais delongas,
deitei-me por cima dele no sofá.
Ele pareceu espantado, mas ao mesmo
tempo satisfeito com o que eu havia feito. Coloquei a mão na barriga de Gabriel
por de baixo de sua blusa e fui acariciando lentamente com as minhas unhas. Ele
segurava minha nuca com força e descia a outra mão pelo meu corpo me
acariciando completamente.
Comecei a suar. A lareira e a pele de
Gabriel estavam extremamente calorosas. Gabriel lentamente colocou a mão no
final do meu vestido e perguntou se podia tira-lo. Eu assenti com a cabeça.
Tempo depois, nós dois estávamos nus e
pela primeira vez eu fiz amor com alguém que eu realmente amava. Foi à sensação
mais incrível que eu já pude ter na minha vida. Meu primeiro orgasmo. E essa
tal sensação me fez até pensar em desistir de tudo o que eu fazia. Imaginem só.
Nunca parei para pensar se deveria desistir do meu ‘trabalho’. Nunca imaginei
que toda aquela vingança que eu prometia aos outros só me afetava e me destruía
cada vez mais. Gabriel foi o único que me fez entender indiretamente.
Depois daquela linda noite de amor,
Gabriel pediu para que eu dormisse na casa dele. Ficamos na cama conversando
até altas horas. Uma hora ou outra nos amávamos. Aquela noite seria a mais
inesquecível da minha vida.
De manhã acordei e estava sozinha na
cama. Fiquei com receio de me levantar e ser indelicada, por isso, esperei que
Gabriel voltasse para o quarto. Ele voltou, mas não estava sozinho. Gabriel
trouxe um café da manhã na cama para mim e me entregou uma rosa. Me derreti
mais uma vez e agradeci a ele por ser tão gentil comigo.
Gabriel não parava de me fazer pensar
na noite em que eu dei o golpe em Bernardo. Ao mesmo tempo em que eu queria
contar tudo para ele e dizer que eu desistiria de fazer tudo o que fiz por ele,
eu tinha o receio de que ele pudesse me odiar eternamente. Não dava mais para
segurar. Gabriel merecia saber a verdade.
- Gabriel...
- Diga meu amor! – Que lindo, ele me
chamou de meu amor!
- Eu preciso te confessar uma coisa! –
Eu fechei os olhos tentando tomar coragem e respirei fundo.
- Diga!
- Sabe o que aconteceu sábado na casa
do Bernardo?
- Sim! Como você sabe o que aconteceu
lá? – Ele perguntou espantado.
- Eu estava lá!
- Você estava? Aquela mulher te
machucou? O que fazia lá?
- Calma Gabriel! Eu estava lá e...
- Diga-me Maggie! – Ele perguntava espantado.
- Eu era aquela mulher Gabriel... Eu
dou golpes em homens que maltratam e abusam mulheres. Eu sou uma golpista!
- Como? – Ele gritou – Não brinque com
uma coisa dessas!
- É a verdade! Não posso mais mentir
para você... Não agora! Me apaixonei por você e resolvi largar tudo isso!
- Não! É impossível! Era você? Eu
sabia que conhecia aquela mulher de algum lugar! Não acredito que você foi
capaz de fazer isso!
- Perdoe-me! Mas o Bernardo errou
milhões de vezes... Eu precisava fazer justiça!
- Fazer justiça? Você é alguma
policial? O Batman? Mulher maravilha? Era meu irmão Margareth! Meu irmão! –
Gabriel gritava.
- O que? Bernardo era seu irmão? –
Gritei assustada.
- Meu irmão Margareth! Você matou o
meu irmão!
- Ele morreu?
- Deixe de ser ingênua! Que nojo de
você! – Gabriel me pegou pelo braço – Não sei por que, mas não quero te
denunciar! – Ele gritava – Saia agora da minha casa e não quero olhar na sua cara
nunca mais! Nunca mais! – Ele me puxou pelo braço e me jogou seminua para fora
da casa dele.
Tempo depois Gabriel jogou minhas
roupas e minha bolsa. Eu estava perdida. Às vezes o que é certo, não é
totalmente certo para si mesmo. Eu errei e agora pagarei por este erro pelo
resto da minha vida.
Capítulo 7 - A Mudança.
Meu coração doía enquanto eu me
agarrava em meu travesseiro e chorava desesperadamente. Senti-me perdida em um
mundo desconhecido, com medo, frio, saudade. Eu queria que Gabriel estivesse
ali, me confortando. Mal ele sabia que quanto mais ele sentisse raiva de mim
seria quando mais iria precisar dele.
Meu peito parecia exposto. Algo como
se eu tivesse um buraco ali e todos pudessem ver o estrago em que meu coração
havia ficado. Eu paguei na mesma moeda. Depois de destruir tantas vidas de
homens que eu mal conhecia e julgava por boatos, agora eu havia destruído a
minha. Na verdade, nunca construí uma vida. Eu sempre quis, mas nunca consegui.
Cada família que eu destruí, parte de
mim foi junto. Querendo ou não, os homens que eu matei tinham filhos... Filhos
que não tinham culpa e que de certo modo precisavam de um pai, assim como eu
precisei. E indiretamente eu transformava a vida dessas crianças na mesma que
eu tive.
Depois de horas refletindo deitada na
cama, chorando e agarrando meu travesseiro pensei que talvez eu pudesse
consertar algo. Talvez se eu me declarasse para Gabriel e tentasse me
explicar... O problema é que ele não iria me ouvir. Eu matei o irmão dele. Foi
o que ele disse. Eu sou uma assassina. Matei o irmão de Gabriel e também o
sentimento que eu havia despertado no peito dele... Ele me amava.
Louis não me viu chegar e então, não
preparou o café. Desci as escadas e o vi sentado olhando para a televisão. Com
meus olhos inchados, olhei para ele pedindo ajuda. Louis se espantou com meu
estado e veio em minha direção.
- O que aconteceu Sra. Maggie? O que
ele fez? - Ele perguntava espantado.
Demorei algum tempo para perceber que
ele havia me perguntado algo. Louis segurou meus braços e perguntou novamente.
- O que aconteceu Sra. Maggie? O que
ele fez? Diga-me!
- O que eu fiz você quer dizer não é
Louis?
- Como assim Sra. Maggie? Ele
descobriu?
- Eu contei para ele! Contei tudo
Louis! - As lágrimas escorriam pelo meu
rosto.
- Não! Você não devia ter contado! -
Louis gritava.
- Eu não podia mentir para ele
Louis... Gabriel não merecia isso!
- É por isso que digo que amor é um
veneno Sra. Maggie! Um ótimo veneno para acabar com qualquer noção mental...
- Não Louis!
- Sim! Você estava apaixonada por
ele...
- Estou - Interrompi.
- Está. Viu? Apaixonada por ele,
besta, chorando! Sra. Maggie, temos que continuar vivendo, seus golpes são os
melhores que eu já ouvi falar.
- Chega Louis! Eu desisti!
- Desistiu? Você está louca?
- Completamente louca por ele. Eu
destruí tantas famílias com meus golpes. Matei tantos homens. Cuidei de
problemas que não eram meus...
- Cale a boca! - Ele me interrompeu -
Este é o seu trabalho Sr. Maggie! Eles lhe pagam para isto.
- Esta carreira não existe Louis! - Retruquei
gritando - Eu criei isso, nós criamos... Clarice criou... Chega disso! Chega!
Eu já consegui o que eu queria...
- Como Sra. Maggie? Conseguiu o que?
- Consegui amar! Eu nunca amei, nunca
senti saudade, nem falta.
- Mas esse nunca foi o seu objetivo.
Foi?
- Não, mas agora é. Não conseguirei
mais trabalhar sentindo essas coisas. Cada homem que eu for dar um golpe vou lembrar-me
de Gabriel, como ele me olhava nos olhos e como ele teve ódio de mim depois.
- Sra. Maggie! Pense duas vezes...
Para onde irei?
- Louis vá viver sua vida!
Aproveite-a!
- Não acredito que fará isso comigo...
- E eu não acredito que você não me
mandou parar quando viu que a coisa estava ficando feia...
- Eu mandei você parar Sra. Maggie,
mas você não me ouviu!
- Desculpe-me Louis! Não posso
continuar com você... Quero que você seja muito feliz e eu tentarei ser
também...
- Esta é sua ultima palavra Sra.
Maggie?
- Sim Louis! Acertarei seu pagamento
assim que puder, você pode ir... -Lágrimas escorriam por meu rosto e eu não
conseguia mais falar nada para Louis.
Louis me olhava com espanto.
Com eu queria ler seus pensamentos.
Saber o que se passa na sua mente fria. O porquê dos seus olhos negros mudarem
de cor ao me olhar.
Com ele deitado na cama, vi seu corpo
coberto com o lençol, seu rosto leve e doce me passava alívio. Passei minha mão
por sua nuca tentando satisfazer o meu desejo de toca-lo. Sem sucesso,
continuei com a mão deslizando pelo seu corpo, agora pelas suas costas. Minhas
unhas o arranhavam com delicadeza.
Ele não acordava. Deve ter se
divertido bastante noite passada. Abri um sorriso e coloquei meus lábios em sua
têmpora. “Bom dia anjo!” Sussurrei. Falei sozinha. Ele não me respondeu.
Estaria ele realmente cansado?
Puxei-o de modo que eu pudesse ver seu
rosto. Seus olhos ensanguentados me fizeram gritar.
- Gabriel!
Acordei.
Um sonho. Um pesadelo. Já era a quinta
noite consecutiva que eu sonhava com ele. Lágrimas corriam pelo meu rosto e o
desespero gritava em meu peito.
Olhei pela janela. Não consegui
encontrar o sol. O prédio da frente tampava minha visão e por um instante me
perguntei como eu conseguia dormir com todo aquele barulho. Remédios, pensei.
Depois que discuti com Louis há uma
semana, eu não soube mais notícias dele. Minha mansão em Ibiza continuava lá,
mas, querendo esquecer o que fiz durante os últimos quinze anos de minha vida,
resolvi voltar a New York e recomeçar na periferia da cidade.
Não sentia mais prazer em ter
dinheiro, mas sentia falta de me vingar. Vingança era a única coisa - depois
dos elogios de Gabriel - que me alimentava interiormente e agora era a única
coisa que poderia manter minha vontade de continuar viva.
Depois daquele terrível pesadelo, nada
conseguiria me manter dormindo, nem remédios. Levantei-me a procura de algo
para comer. Fui até a pequena e suja cozinha. Abri o armário e encontrei um
saco de pão-de-forma. Ai que saudade do café da manhã de Louis.
Saudade. Mais um sentimento tosco que
eu havia desenvolvido.
Tentei ficar mais animada esperando
encontrar algo na geladeira. Abri com um sorriso e fechei a porta com raiva. Eu
iria comer pão puro naquela madrugada. Mastiguei o pão com muita má vontade,
mas meu estomago pedia algo para satisfazê-lo.
Roupas. Acho que isso era a única
coisa que eu ainda havia guardado. Coloquei uma blusa de frio e um sobretudo
vermelho. Eu não havia escolhido a melhor época para ir a New York. O frio
estava tenebroso.
Caminhei pelas ruas da cidade tentando
encontrar algo que ocupasse meu tempo. Um emprego talvez. Olhei para alguns
bordéis e pensei que eles poderiam trazer o que eu tanto queria. Mas vingança
não iria ser possível fabricar em lugares tão públicos e tão frequentados como
esses bordéis.
Duas horas na rua e eu não havia
encontrado nada, porém, finalmente as lojas já estavam abertas. Entrei no
primeiro Starbucks que vi pela frente. Café. Pensei entusiasmada.
Depois de pegar meu café, sentei-me em
uma mesa. Isolada de tudo e de todos que tomavam café como eu, peguei uma
revista e comecei a ler. Dicas de maquiagem, como emagrecer e todas aquelas
dicas fúteis que eu nunca consegui seguir e sempre fui capaz de seguir as
minhas. Aquela revista não iria me distrair o bastante.
Comecei a olhar as pessoas entre a
revista, disfarçando, ou pelo menos tentando. Mulheres cheias de rugas, algumas
velhas, outras novas demais, mas sem dinheiro nenhum para se cuidar. Alguns
homens barrigudos e nojentos. Isso me lembrava meu pai.
Um homem me chamou atenção. Cabelo
escuro, de olhos castanhos claros, quase um mel eu diria. Pele bem branca.
Corpo forte e com aparência bem quente. Apenas o olhei mostrando interesse. Eu
não queria que ele me visse.
Ele me olhou. Droga! Torci para que
ele não tivesse percebido o meu tal falso interesse. Funcionou. Ele seguiu para
a fila e foi pedir seu café. Respirei aliviada por uns dois minutos.
Agora ele vinha em minha direção. “Sente-se
na primeira mesa que ver cara” pensei. Ele continuou vindo em minha direção.
Sentou-se ao meu lado e com um sorriso de canto falou:
- Permita-me?
Você já sentou não foi? - Pensei.
- Claro. Fique á vontade - Ou vá
embora logo maldito, pensei.
Ele ficou me encarando por alguns
instantes. Continuei fingindo que estava lendo aquela revista horrível. Seja
tolerante, pensei.
- O que há trás aqui tão cedo? - Perguntou-me ele.
- Falta de sono! - Respondi tentando
ser gentil.
Por mais um tempo ele ficou sem falar
nada. Pareceu continuar me observando, mas eu não trocava olhares com ele.
- Não estou te incomodando estou? - Ele
sorriu.
- Não! Fique á vontade! - Repeti.
- Meu nome é Scott! - Ele estendeu a mão.
- Muito prazer Scott! Sou Margareth, mas
pode me chamar de Maggie! - Apertei a
mão dele.
Senti um calafrio instantâneo. Aquela
mão era extremamente gelada, parecia uma pedra. Olhei nos olhos dele espantada.
Eu jurava que há um minuto os olhos dele eram castanho claro quase cor de mel e
agora... Estavam totalmente negros.
- Eu jurava que seus olhos eram
castanhos! - Falei observando-o.
- Ah! Todos dizem isso! - Ele sorriu para mim - No claro
principalmente. Eles parecem castanhos de longe, mas na verdade são pretos.
- Interessante...
Eu não parava de olha-lo e em uma
fração de segundo percebi e dirigi meus olhos para o meu café, agora, quase
frio.
- Droga! - Resmunguei pegando meu café.
- Algum problema? - Ele olhou para meu copo de café - Creio que
já esta frio.
- Sim!
- Respondi.
- Vou pegar mais um para você.
- Não!
- Falei eufórica e puxei seu braço frio - Deixe para lá!
- Imagine Maggie! Pegarei mais um para
você.
- Já que insiste...
Resolvi deixa-lo ir para que eu
pudesse pensar naquela pele fria com aparência quente. Era realmente estranho
entender aquele homem tão belo. Indiretamente ele me despertou interesse... Mas
eu ainda amava Gabriel. Claro que fiquei olhando para aquele estranho homem.
Imagine se ele coloca algo no meu café e eu caio dura em 3 segundos?
Fiquei observando Scott enquanto ele
pegava outro café para mim. Suas expressões eram estranhas. Ele parecia fungar
o nariz toda hora e observava cada um de um modo diferente. Ás vezes olhava
para mim e dava um sorriso, mas não o percebi colocando nada. Ufa!
Tempo depois ele voltou:
- Aqui está! - Ele me entregou o café.
- Obrigada! Fico te devendo essa! - Agradeci.
- Me devendo? - Ele pensou alguns
instantes - Na verdade, poderia me pagar de uma forma muito simples...
- De uma forma muito simples? - Repeti.
- Sim! Adoraria que você saísse comigo
Maggie! - Ele pegou em minha mão.
Seus dedos eram frios e pesavam como
pedra. Mais uma vez senti o mesmo calafrio que da primeira vez. Os olhos de
Scott me fitavam com desejo. Será que eu poderia realmente lidar com ele?
Dinheiro não parecia problema. Ele tinha boa aparência, usava roupas de marca.
O que me fazia desconfiar de Scott era seu olhar diferente.
Parte dele me dava medo, outra parte o
desejava em meus braços. Eu tentaria dar um golpe nele. Desta vez, não por
dinheiro, mas sim por vingança. Precisava me alimentar disso.
- Sair com você? - Fingi-me de ingênua - O que leva um homem
tão bonito chamar uma mulher tão fosca perto dele?
- Pare com isso Maggie! Você é
deslumbrante! - Ele apertou meus dedos com delicadeza - Saia comigo, por favor!
- Certo! Você sabe me convencer... - Eu
abri um sorriso.
- Irei te convencer sobre muito mais
coisas Maggie! – Ele correspondeu o sorriso.
Scott abriu um sorriso e olhou-me nos
olhos. Agora aquele olhar me demonstrava perigo. Seus olhos não eram mais
castanhos nem pretos, desta vez, era de um puro vermelho sangue.
Capítulo 8 - O reencontro.
Scott me dava arrepios. Seus olhos
mudando de cor, sua pele fria, por um momento pensei que ele fosse um vampiro,
juro. Mas sou muito ingênua, seus olhos tem pigmentação diferente, isto é algum
tipo de doença que eu mesma desconheço, mas prefiro acreditar que ela existe. E
para explicar sua pele fria... Eu diria, tem muita gente com pele fria por ai.
Fora que eu mal consegui dormir, então logo imaginei que eu realmente estivesse
na verdade com sono e por isso, fantasiei tanto com aquele homem.
Fiquei pensando em como aplicaria um
golpe nele, afinal, eu precisava voltar à ativa. Ficar em casa me lamentando
seria tiro e queda para uma depressão profunda de noites e noites com potes de
sorvete, mas que seja eu não precisava pensar, eu precisava levar Scott para
fora daquele lugar e descontar toda a minha raiva nele. Eu não tinha mais
Gabriel... E botei na minha cabeça que não iria ter mais. O que podia me
confortar então? Apenas meus golpes.
- Scott, posso ser sincera com você? –
Perguntei.
- Mas é claro Maggie! Diga e eu
responderei.
- Bom – pensei por um instante e fui
direto ao ponto – Você é um homem muito atraente, simpático e eu juro, por
tudo, que não consigo mais me segurar...
- O que quer dizer com isso? – Ele se
espantou.
- Quero transar com você Scott! Por
favor, leve-me para sua casa e faça o que quiser comigo!
- Mas...
- Shiiu! – eu coloquei o dedo sobre
seus lábios – Se você quiser transar comigo, apenas pegue na minha mão e me leve
para sua casa. Apenas isso!
- Certo! – ele parecia confuso –
Vamos! – Scott pegou minha mão.
Fomos em direção ao carro dele. Estava
apreensiva. Teria que fingir um orgasmo desta vez? Creio que sim. Gabriel foi o
único... Bom, esqueça isso. Preciso me concentrar em Scott. Durante a ida até
sua casa, Scott não falou nada, mas acariciava minhas pernas frequentemente. Tempo
depois ele já estava deitado na cama a minha espera. Fui ao banheiro prometendo
me arrumar, mas na verdade vasculhei armário por armário. Duas correntes de
ouro foram às únicas coisas que eu consegui achar. Maldito! Pensei que fosse
rico. Mas ainda existia outra possibilidade. Poderia existir um cofre na casa
dele. Pensei rapidamente e tirei toda a minha roupa e apareci na porta do banheiro
completamente nua.
Recebi um sinal de que estava sensual
o bastante naquela noite. Ele já demonstrava aquele volume na calça. Coitado!
Mal sabia ele que estaria com sua parte mais preciosa do corpo sendo esmagada
em alguns instantes.
- Ai Scott! – fui em direção a ele e
subi na cama devagar ficando de quatro por cima dele.
- Maggie, estou impressionado! – ele
arregalava os olhos.
- Mesmo? Aguarde querido, isto é só o
começo Scott! – Eu passei minha língua sobre os seus lábios e os mordi
levemente.
Scott puxou-me com força de forma que
eu encostasse meu corpo inteiro no seu. Desesperada por tempo arranquei a
camisa dele rapidamente enquanto pressionava minha mão sobre sua perna e
arranhava levemente. Scott era violento, ele não media sua força e diversas
vezes apertou-me com muita força. No inicio não concordei com isso, mas depois
pensei em direitos iguais. Minha vontade era de acabar com toda aquela minha
vontade e transar com ele imaginando que fosse Gabriel ali.
Passei as mãos pelo cós de sua calça,
desabotoei-a devagar e depois fui deslizando minhas mãos por suas pernas
tirando a calça enquanto olhava para Scott e dava sorrisos maliciosos.
Meu olhar devia ser intenso. Se ele
percebesse uma desviada de olhar se quer eu estava perdida. Scott parecia ser
um homem observador e exatamente por isso ele é um dos tipos mais difíceis de
conquistar e lidar. Mesmo ele me levando tão rapidamente para a casa dele.
Tirei a calça de Scott e sentei em
cima da sua parte mais prazerosa. Ele abriu um sorriso e eu logo percebi que
ele estava gostando.
- Maggie, você é impossível! – Ele
mordia os lábios.
- Como você prefere Scott? – Perguntei.
- Prefiro o que?
- Ora seu bobinho... O sexo oral. Como
prefere?
- Do jeito que você preferir. – Ele me
olhou nos olhos.
- Eu comando então.
- Sim.
- Isto tão foi uma pergunta! – Exclamei
e deite-me em cima do seu peito.
Devagar fui tirando sua roupa
delicadamente. Mordia meus lábios frequentemente e passava a mão entre os meus
seios. Scott delirava e suava. Fiquei de pé na cama e tirei minha calcinha,
joguei em cima do rosto de Scott. Não sei por que, mas homens adoram isso.
Scott cheirou minha calcinha e olhava pra mim com desejo. Coloquei o pé
levemente sobre a calça dele e apertei devagar. Scott gemeu. Não sei se foi de
prazer ou de dor.
- Vá com calma Maggie! – Ele disse.
- Estou indo com muita calma.
Com um pulo sentei-me na cama. Passei
a mão pela barriga de Scott e arranhei com vontade. Encostei meus lábios no
dele e o beijei como se tivesse vontade. Abri a calça de Scott abaixei o zíper
devagar e tirei sua cueca. Olhei para o pau dele com desejo (como se eu
desejasse aquilo). Em uma fração de segundos peguei a seringa que eu havia
colocado na cabeceira da cama sem ele perceber e enfiei bem onde todo o homem
sentiria uma dor enorme só de imaginar uma agulha entrando profundamente.
Tempo depois o tudo já tinha acabado.
Scott estava morto e dormindo do outro lado da cama. Sim, muito interessante
este tipo de homem, não?
Levantei-me da cama bem devagar. Por
onde eu iria começar a procurar? Armários pareciam uma boa ideia. Corri para o
closet. Vasculhei gavetas e ternos. Nada. Que inferno! Jurei, que se ele fosse
pobre o bastante para jogar esta noite no lixo eu iria vender seus órgãos no
mercado negro.
Corri para sala, vasculhei as
almofadas do sofá, mesinhas, vasos. Nada. Fui em direção à cozinha e enquanto
andava percebi um fundo falso no chão. Há, é agora! Puxei o tapete que escondia
o azulejo. Puxei o azulejo devagar e vi uma escada.
“Sim!” pensei. “Devo encontrar milhões
de notas de dinheiro e mais algumas joias”. Desci as escadas e dei de cara com
tudo escuro. Fui apalpando as paredes, tentando encontrar algo e nada. Resolvi
então bater palmas e enfim as luzes se acenderam.
Vi um cofre. Parecia bastante difícil
de abrir, mas antes que eu pudesse tentar abri-lo Scott apareceu.
- Esta sem sono Maggie? – perguntou.
- É... Quer dizer... Estava andando
pela casa e percebi o chão falso. Desculpe a curiosidade. Acabei vindo parar
aqui.
“Droga!” pensei. Ele me descobriu.
Pensei em sair correndo pela porta pela primeira vez, mas não poderia desistir
tão facilmente. Meus olhos estavam quase lacrimejando e minhas pernas tremendo.
Como eu sairia desta? Eu apliquei uma coisa que seria quase impossível ele
estar vivo.
- Você é uma golpista não é? – Ele
perguntou confuso.
- Na verdade...
- Diga Maggie!
- Sou. Mas não estou em um golpe hoje.
Só vim aqui por curiosidade!
- Hoje você não esta em um golpe?
Amanhã estará? Ou talvez quando sairmos da próxima vez? – Ele falava com a voz
ficando cada vez mais alta.
- Não! Scott, por favor, acredite em
mim!
- Não vou acreditar. Não quero
acreditar! Você é nojenta, puta... Resumidamente prostituta!
- Pare! – Eu gritei.
- Olhe... – Ele pensou por um momento
– Você vai sair do jeito que está da minha casa agora... E não vai pegar nada
do que é seu aqui... Caso contrário eu chamarei a polícia. Aí sim você vai se
explicar.
- Não posso deixar minhas coisas aqui!
– Quando terminei de falar Scott já estava com a mão na minha garganta me
enforcando contra a parede com uma força que eu jamais imaginei existir.
- Prisão ou liberdade. A escolha é
sua. Aprenda a fazer parte dos jogos, você não controla todos os homens
Margareth.
- Não vou ser presa Scott! – Corri
para cima de Scott e dei um chute entre suas pernas.
É claro. Scott não sentiu porra
nenhuma. Minha perna sentiu. Ele me pegou pelos braços com uma enorme força.
Meus ombros viraram pó. Eu estava perdida. Doída. Machucada.
Scott me amarrou e deixou-me presa.
Ouvi ele ligando para policia e falando que finalmente tinha encontrado a
melhor golpista de Nova York. Que ótimo! “Pelo menos eu era a melhor golpista”
pensei.
Fiquei observando o local, procurando
qualquer coisa que me ajudasse a escapar. O duto de ventilação. Incrível. Consegui
desamarrar a corda que prendia meus pulsos com rapidez, e finalmente quis
agradecer a Louis por me ensinar alguns desses truques. Corri para o duto e
chutei com a maior vontade. Meus pés entraram em colapso. A dor era intensa,
mas depois que eu saísse dali eu poderia pagar uma ótima manicure.
Entrei no duto de ar. Que nojo! Aquilo
não era lavado a séculos, ou talvez nunca tivesse sido lavado. Mas que seja eu
precisava sair dali. Arrastei-me o mais rápido possível. Eu estava ofegante
quando comecei a escutar o barulho na rua. Fui um pouco mais rápido e
finalmente vi luzes. Mais uma vez machuquei meus pés chutando a saída. Depois
de dez tentativas eu estava livre.
Sai correndo o mais rápido que pude.
Não olhei para trás. Eu já não respirava direito. Na verdade, só queria sair de
lá, queria intensamente sair de lá.
Entrei em um beco sem saída. “Merda!”
Gritei quando vi um carro entrando no beco. Respirei fundo e imaginei o pior.
Eu seria presa, talvez pudesse ir para
o corredor da morte. Viveria o resto dos meus dias em uma prisão cheia das
mulheres mais loucas e psicopatas do planeta. Era o fim. O fim de Margareth
Milles.
O carro parou bem na minha frente. Apenas
alguns centímetros de distância. O vidro do motorista foi abaixado. Era um
homem. Olhos azuis, loiro, lábios carnudos. Por um momento parei de respirar.
Era Gabriel quem estava dentro do carro?
“Pronto! Ele iria me atropelar para
vingar a morte do seu irmão Bernardo.” Pensei.
- Entre logo Margareth! A polícia está
procurando por você! – Ele gritou.
- Mas... Mas...
- Se quiser continuar viva, sugiro que
entre agora no meu carro Margareth!
Eu engoli a seco. Abri a porta e
entrei no carro. Meu coração disparava, meu corpo fervia. Era essa a sensação
de reencontrar Gabriel.
Capitulo 9 – Orgulho?
Gabriel não falava, não olhava para os
lados e nem se quer respirava (era o que parecia). Ele apenas olhava fixamente
para frente.
Confiei nele o bastante para entrar
naquele carro e esperar que ele não fosse fazer nada comigo. É claro que por
muitos momentos fiquei pensando nas milhares de coisas que ele poderia fazer
comigo. Jogar o carro penhasco abaixo era uma das possibilidades.
Eu queria perguntar para ele o que eu
fazia ali. O porquê ele veio me buscar e como ele sabia que eu estava lá. Mas
nada saía. Minha garganta estava seca. Minhas cordas vocais pareciam terem sido
arrancadas. Eu não tinha mais saliva e nem se quer ar nos meus pulmões, o que
predominava minha sensação de estar viva era a intensidade que meu coração
batia apenas por estar ao lado de Gabriel. Que por sinal, transmitia-me calor
de forma inexplicável.
Resolvi arriscar e ver se Gabriel
trocaria palavras comigo.
- O que vai fazer comigo Gabriel? - Perguntei assustada.
Ele não respondeu. Mas Gabriel começou
a gargalhar. Ria intensamente, mal podia respirar de tanto que ria. Fiquei cada
vez mais assustada e curiosa para saber qual era a graça.
- Qual é a graça Gabriel? - Esperei pela resposta, mas ele não me
respondeu, então perguntei novamente -
Vamos! Diga-me: qual é a graça?
- Certo! - Ele parava de rir aos
poucos.
- Fale logo!
- Calma! - Ele ria - Preciso respirar primeiro.
Esperei ansiosa. Gabriel demorou a
responder. Ficou respirando fundo e esperando o ataque de riso passar. Vê-lo
rindo me deixou nervosa. O que estava acontecendo? Por um acaso eu parecia uma
palhaça?
- Diga logo Gabriel! - Eu exclamei.
- Certo... - Ele respirou fundo - Não
pude me conter e tive que rir quando vi sua cara de assustada Maggie.
- O que?
- É! Você ficou morrendo de medo
quando entrou no carro, mas depois quando me perguntou o que eu iria fazer com
você... Sua cara de apavorada... Não pude me conter!
- Eu não estava e nem estou assustada!
Só fiquei curiosa em saber por que estava me esperando...
- Ah!
- Não vai me matar? Nem brigar comigo?
- Porque iria fazer isso, quando somos
da mesma espécie?
- Espécie? - Perguntei.
- Exatamente. Sou como você...
Margareth Milles, a famosa golpista de Nova Iorque.
- Não! - gritei - Você só pode estar
brincando! Você? Gabriel... Um golpista? - comecei a gargalhar - Não brinque
com isso!
- Te enganei direitinho quando disse
que era dono daquele restaurante, e também quando falei que era espanhol e
tinha nascido em Ibiza. Ah, e quando falei que Bernardo era meu irmão... Tudo
mentira!
- Meu Deus!
- Viu, parte de você caiu no seu
próprio veneno.
- Mas... - pensei por um instante e falei - Não pode
ser... Não acredito em pessoas... Você falou com tanta sinceridade...
- Por isso sou um golpista. Mas é
claro que você Maggie, não resistiu ao meu charme e não conseguiu me matar nem
me dar um golpe porque estava louca por mim.
- O que? - eu ri - Só pode estar
brincando. Eu, com uma queda por você? Até parece!
- Então porque não veio atrás de mim? -
ele perguntou.
- Porque você até então era irmão de
Bernardo. E eu não conseguiria dar um golpe em você depois disso.
- Desenvolveu sentimentos imagino.
- Não! Nunca! - eu começava a ficar
confusa - Porque inventou tudo isso então?
- Margareth, eu já sabia desde o
inicio quem era você... Já sabia de todos os seus golpes, suas vitimas...
- E como? - perguntei espantada.
- Você é uma golpista, eu sou um
golpista. Deste modo, obviamente que eu deveria saber meus concorrentes de
trabalho... Ou você não conhece nenhum outro golpista?
- Mas... Mas... - eu não sabia o que
falar - É claro que eu conheço outros golpistas, mas não imaginei que você
fosse um, e nem nunca ouvi seu nome no meio dos golpes.
- Eu sou discreto. Sou um golpista
particular e cobro um preço muito alto pelos meus golpes. Costumo sempre ter os
mesmo clientes e só aceito novos trabalhos quando existe recomendação de
clientes antigos.
- Que lástima! Você fala como se fosse
o golpista do ano e tivesse ganhado o prêmio de melhor ator por ser tão
mentiroso! - falei inconformada.
Meu coração batia normalmente. Não sei,
mas descobrir que ele era como golpista como eu, fez parecer que as coisas eram
muito mais fáceis. Parte de mim queria agarrá-lo e pedir para fazer parte dos
golpes dele e outra parte queria sair correndo e torná-lo meu maior inimigo.
- Eu também não gosto de morenas.
Gosto de loiras. Mas você nem isso percebeu - ele riu.
- Não vá pensando que irei cortar meu
cabelo ou ficar loira apenas para agradar você!
- E quem disse que eu quero que me
agrade? Viu? Eu sabia que você estava apaixonada, louca e extremamente atraída
por mim.
- Gabriel, pare o carro agora! - eu gritei.
- Você é louca? Estou no meio de um
viaduto! - ele retrucou.
- Pare o carro!
- Não!
- Pare agora Gabriel! - gritei
novamente - Estou falando sério!
- Não posso e não vou parar o carro Margareth!
- Não vai? - perguntei.
Antes que ele pudesse responder puxei
o freio de mão e o carro parou rapidamente. Com a força do carro bati a cabeça
no vidro e é claro que eu pouco me importei. Abri a porta e sai andando no meio
do viaduto.
Gabriel desceu do carro e eu só o
ouvia gritando meu nome. Ele não correu atrás de mim, mas gritou até o momento
em que um carro passou e arrancou a porta do carro dele. A última coisa que eu
o escutei dizer foi Filha da pu... E continuei minha caminhada.
Que decepção! Gabriel era exatamente
como eu... O mesmo gênio, a mesma vontade de se vingar, o mesmo egocentrismo
misturado com luxúria... A única coisa que nos separava era o fato de sentir
algo por ele enquanto ele não sentia nada por mim.
Acordei na manhã seguinte com os pés
inchados e doloridos. Não gosto de andar na rua de salto, muito menos andar um
quilometro e meio em um viaduto cheio de carros e quase sendo atropelada, mas
não interessa, cheguei em casa viva, com ódio e um pouco triste.
Fui para a cozinha e senti um vento
frio nas costas. A janela estava aberta. Não me lembrava de tê-la deixado deste
jeito na noite passada. Fui até a janela e fechei-a. Uma mão gelada tocou meu
ombro e eu pulei de susto.
- Sra. Maggie! disse uma voz amigável.
- Louis! - gritei e o abracei - Quase
morri de susto!
- É...
- Louis estranhou o abraço e recuou.
- Desculpe-me... Esqueci que você não
gosta muito de abraços - abri um sorriso e me afastei - O que faz aqui Louis?
- Pressenti que você tinha voltado a
ser como antes...
- Como pressentiu? - perguntei espantada - Não voltei!
- Voltou sim Maggie... Vi você
chegando em casa e reclamando de um cara que eu mal conheço chamado Gabriel.
- Você está me espionando?
- Estou...
Antes que ele pudesse completar
interrompi.
- Mas como assim? Como sabe que
briguei com o Gabriel e que ele foi um crápula comigo?
- Sra. Maggie... Eu conheço Gabriel!
- Conhece? Louis... Não minta para
mim!
- Gabriel conviveu comigo alguns anos
e acho que agora é a hora de contar a você toda verdade...
- Verdade? Que verdade? - comecei a
ficar confusa e minhas mãos gelaram - Louis! Do que você está falando? Porque
está me olhando com essa cara?
- Gabriel é meu parente... Um parente
próximo eu diria, mas alguém que eu convivi em certa época e nem deve se
lembrar bem... - Louis pegou na minha mão - Gabriel é meu neto... A tradição de
ser golpista está há anos na nossa família.
- Neto? Seu neto? - eu engasguei - Então ele sabe que você trabalha para mim?
- Não Maggie! Não vejo Gabriel desde
que ele tinha 12 anos de idade. Eu fugi. Larguei minha filha pouco tempo antes
de Gabriel completar 13 anos. Ele não sabe onde vivo, nem o que faço e muito
menos se estou vivo. Não se preocupe!
- Mas ele não tem curiosidade em
saber? E sua filha? Por onde anda? Porque a deixou?
- O pai do Gabriel não era o marido
que minha filha merecia ter... Quando Gabriel tinha seus 10 anos, eu discuti
diversas vezes com meu genro. Tinha alguns dias que eu chegava em casa e via
minha filha com hematomas e arranhões pelo corpo. No começo ela dizia que tinha
batido em algum lugar, mas com o tempo as marcas foram aumentando de tamanho e
quantidade. Resolvi então instalar algumas câmeras. Na época gastei quase todo
o meu dinheiro com isso, e enfim descobri que o pai de Gabriel batia nela.
“Ele não era alcoólatra, nem bravo e
muito menos mal educado. Era bem sucedido na empresa onde trabalhava e
conseguia manter a família sem nenhum problema. Nunca entendi como ele pode e
porque ele batia na minha filha... Talvez ele tivesse prazer em fazer isso ou era
algum psicopata. Não sei! Só sei que me dava agonia ver minha filha sofrer e
meu neto assistir a tudo aquilo.”
“Um dia eu não aguentei e fui
encontrar com ele na hora de saída do trabalho. Falei para irmos tomar um café
para discutir algumas reformas que eu queria fazer no quarto de Gabriel.
Diferente da mulher, ele nunca encostou um dedo em Gabriel. Mas continuando...
Levei-o até uma cafeteria e conversamos por algumas horas. Esperei anoitecer e
pedi para que ele me levasse até a estrada Scottland porque eu queria respirar
um pouco de ar puro antes de ir para casa.”
“Ele obedeceu e me levou até lá.
Quando descemos do carro, fingi ter visto algo na floresta e corri gritando
pelo nome dele. Ele veio atrás de mim. Em certo momento, fiquei por trás dele e
o empurrei. Não sei de onde tirei forças, mas bati tanto naquele crápula que
até hoje me lembro de cada soco e cada marca de sangue que deixei na minha
blusa. Não pense que o matei, porque não fiz isso por pouco, mas gritei em alto
e bom tom para ele nunca mais aparecer na frente da minha filha ou do meu neto.”
“Voltei para a casa a pé e ele não me
seguiu. Desde então nunca mais apareceu na casa e até hoje não tenho notícias
dele. Apenas observo Gabriel de longe e não sei nem como está minha filha...
Nunca mais a vi.”
- Louis... Não acredito! - eu ainda
estava chocada - Mas e sua filha? Porque você não a viu mais?
- Um tempo depois Luiza (minha filha)
descobriu o que eu fiz e foi contra isso. Disse que eu estava tirando o pai de
Gabriel da vida dele, mas na verdade eu sabia que apesar de apanhar ela era
louca e apaixonada por ele. Desde então saí de casa e nunca mais voltei. E
preciso da sua ajuda!
- Mas como posso ajudar? Não entendo!
- Preciso que converse com Gabriel,
que volte a encontrá-lo! Preciso que o traga aqui, preciso vê-lo e abraçá-lo.
Dizer os meus motivos e reencontrar minha filha.
- Mas Louis... Ele é como eu, não
posso ir atrás de quem é como eu. De quem é golpista.
- Margareth, deixe de ser idiota! -
ele gritou e eu parei por um instante - Ele não é como você! Ele é um
golpista... Mas é o homem que você ama e isso muda tudo! Preciso de você! Da
sua ajuda... Deixe de ser orgulhosa uma vez na vida, por favor?
Eu engoli em seco e não respondi. Eu
sabia que Louis estava certo, assim como sabia que não queria encontrar Gabriel
de novo porque ele iria me fazer uma porção de perguntas, mas precisava ajudar
Louis, precisava retribuir toda a ajuda que ele já havia me dado.
Capitulo 10 – Channel.
Depois de escutar toda a história que
Louis disse, ficou difícil para dormir. Passei a noite pensando na filha de
Louis, como ela havia feito para sustentar um filho sozinha, como ela havia se
sentido e por um instante me veio à cabeça minha mãe. Não sei o que aconteceu
com ela depois que fugi de casa, não sei se meu pai a largou ou se continuou fazendo
o que sempre fez, bater nela ou se ele até mesmo morreu. Mas imaginei o que
poderia ter acontecido se eu não tivesse ido embora, se não tivesse
“esfaqueado” meu pai. Será que eu seria feliz? Será que minha vida teria
mudado? Ou será que até mesmo eu continuaria com todos os traumas que tenho até
hoje?
Adormeci pensando em mil coisas e
acordei com Louis me puxando o pé na cama. Abri os olhos e quase o falei mal
por estar muito cansada. Alguns dias haviam se passado, e eu me isolei do
mundo, até que Louis foi me incomodar.
- Louis! – gritei.
- Sabe que horas são Sra. Margareth?
- Não e nem quero saber! – virei-me de
bruços na cama e cobri minha cabeça com um travesseiro.
- Hora de você acordar e colocar o
plano em ação Margareth!
- Plano? Que plano?
- Procurar Gabriel, trazê-lo até mim e
viverem felizes para sempre.
- Qual parte do “Olá, eu sou uma
golpista e não posso ir atrás de outro golpista” você não entendeu Louis?
- Não se faça de burra. O café esta
servido e eu estou lhe esperando na sala.
Por um momento quis estrangular Louis.
Mas só de pensar que aquela mesa deveria estar cheia de coisas boas.
Levantei-me e coloquei meu roupão com pressa. Fui até a mesa e encontrei um
pedaço de bolo.
- Cadê a mesa que você sempre faz
Louis? – perguntei.
- Pensei que não quisesse tanto... E
além do mais, enquanto não falar com Gabriel vai ser o que terá de mim...
- Nossa! Valeu! – sentei-me e comi o
único pedaço de bolo assim mesmo, fome não me faltava.
Depois de Louis insistir e eu parar
pra pensar. Percebi que realmente devia algo para Louis... Uma vez que ele já
havia me ajudado tanto desde que o conheci. Liguei para Gabriel esperando ouvir
xingos ou que até não me atendesse.
- Oi – ele atendeu.
- Pensei que tivesse trocado de
número! – exclamei.
- Na verdade é meu telefone
particular. Quem é? – perguntou-me.
Como assim ele não sabia quem era?
Espera... Gabriel me passou o telefone particular?
- Margareth Milles...
- Sabia que não ia aguentar e iria me
ligar – ele riu – Por falar nisso... É bom que acerte comigo o valor do
conserto da porta do meu carro Ok?
- Como se dinheiro fosse importante
para mim... E eu só te liguei justamente pra pagar essa porcaria de porta do
teu carro velho.
- Ele é uma raridade... E a porta vai
ficar bem cara quando estiver pronta.
- Não tem problema Gabriel, eu pago! –
exclamei.
- Ok então. Golpista rica.
- Para de ser irônico! – parei por um
instante e falei – Preciso te encontrar para acertarmos isso.
- Na verdade é só você depositar na
minha conta o valor. Eu te ligo pra falar quanto é que ficou o conserto.
- Não Gabriel! Você é um golpista e
golpistas não acreditam em golpistas! – eu ri – Me encontre na minha casa...
Passei o endereço e Gabriel pareceu
espantado por eu querer recebe-lo em minha própria casa, mas aceitou.
Convidei-o para vir na hora do jantar. Assim, eu prepararia algo para comermos
e conversarmos e depois chamaria Louis para resolver os assuntos dele com o
Gabriel.
O problema era o que eu ia sentir
quando visse Gabriel. Por momentos tive raiva depois que o abandonei no meio da
ponte... Mas em pensamentos durante a noite senti saudade dele. Mesmo sendo um
golpista nojento e muito pior do que eu...
Antes que a noite chegasse, saí, fui
ao cabeleireiro, deixei meu cabelo castanho mesmo, nada de loiro mais para
mentir as coisas para Gabriel. Se ele fosse gostar de mim – o que ainda é
praticamente impossível – seria morena e sem lentes. Comprei um vestido Channel
desejando que meu cartão estourasse, mas não foi dessa vez.
Voltei para casa e ao entrar encontrei
Louis mais elegante do que nunca. Smoking preto e deslumbrante. Abri um
sorriso, o cumprimentei e fui até meu quarto terminar de me arrumar. Tomei meu
banho, descansei, tentei colocar todas as ideias ruins pra fora da minha mente,
até que algumas vezes Scott me veio à cabeça.
Ele era tão estranho. E eu não havia
parado pra pensar em como ele sobreviveu ao veneno que injetei nele. Será que
foi no lugar errado? Talvez. Eu muito animada em arrancar o que ele mais queria
e acabei acertando errado... Só pode ser.
Olhei para o relógio e já eram quase
sete horas da noite. Saí do banho correndo para terminar de me preparar.
Maquiei-me de forma bem simples, mas com um delineador preto nos olhos, rímel e
sombra dourada. Um batom vermelho para finalizar e pronto, era só colocar o vestido
e meus sapatos.
Ouvi Louis me chamando assim que
terminei de me arrumar. Fui até a sala e me deparei com uma mesa incrível,
linda, porém à luz de velas.
- O que é isso Louis? – perguntei.
- Isso o que? Você não gostou?
- Tirando as velas!
- O que tem as velas Margareth?
- Fazem essa porcaria de jantar
parecer um encontro!
- Para que tanto drama? Eu vou
aparecer no meio do jantar pra acabar com o clima de vocês mesmo Senhora. Não
se preocupe, tema romântico só será no início.
- Certo... – comecei a pensar nas
coisas que Louis havia me falado sobre não me apaixonar antes de contar sua
história com Gabriel – Louis posso te perguntar algo?
- Claro Senhora!
- Porque quando eu estava me
apaixonando por Gabriel, você meio que foi contra e a favor ao mesmo tempo?
- Porque eu conheço meu neto!
- Como assim conhece? Você conviveu
com ele apenas 10 anos... – fiquei confusa.
- 12 anos na verdade... – Louis
suspirou – O que não significa nada para alguns, mas já foi o bastante pra
saber das atitudes dele quando fosse mais adulto.
- E quais seriam as atitudes? – a
campainha tocou.
- Acho que esta conversa vai ter que
ser terminada mais tarde...
Droga! Agora eu queria entender, e é
claro, não podia ao mesmo tempo. Gabriel iria me matar depois que soubesse que
o trouxe até o avô dele... Na verdade, não sei se ele iria gostar ou odiar. É
estranho... Difícil de entender.
Capitulo 11 – Jantar familiar
Minha vontade era de abrir a porta e
falar para os dois se resolverem sem mim. Difícil porque quando olhei para trás
Louis já não estava mais na sala. Caminhei até a porta e abri. Gabriel me olhou
dos pés a cabeça e eu fiz o mesmo. Terno azul marinho, gravata cinza. Sim, ele
estava extremamente delicioso daquele jeito. Minha vontade era de deixa-lo nu e
irmos para o que interessava. Mas não ia ser dessa vez.
- Seja Bem Vindo Gabriel! – falei
quando abri a porta.
- Obrigado... Posso entrar?
- Claro, fique a vontade. – a nossa
ironia era tão grande que dava até vontade de rir.
- Apesar de ficar em um lugar ruim,
até que sua casa é bonitinha – disse ele observando a casa enquanto entrava –
Dá pra sobreviver aqui?
- Na verdade dá.
- Pensei que você estivesse rica
Margareth.
- Na verdade só estou aqui porque
estou esperando minha nova cobertura ficar pronta.
- Sério? Uma cobertura? – ele riu –
Incrível! Onde irá ficar?
- Não viemos falar sobre minha
cobertura ou sobre meu novo endereço, podemos ir ao que realmente interessa? –
caminhei até a mesa esperando que ele me seguisse.
- Claro! Que indelicadeza a minha,
não? – ele disse enquanto puxava a cadeira para que eu me sentasse – Sente-se!
- Obrigada! – sentei-me – Então
Gabriel, espero que goste da comida.
- Engraçado ela já estar servida. Onde
estão seus empregados?
- Na verdade de folga. – eu ri – Não
sou tão ruim como pareço.
- Claro! Quem diria não? Só é má
quando esta comigo. – ele abriu um sorriso irônico.
- Não fui má com você! É simples, eu
te perguntei coisas e você não me dava respostas – eu sorri – logo, não merecia
minha compaixão.
- Você continua a mesma...
- E você o mesmo de sempre... Fraco,
sem talento! – Exclamei enquanto me servia.
- Fraco? Sem talento? – ele gargalhou
– Não foram essas as suas palavras depois que transamos um dia desses.
Eu calei-me. Maldito! Onde ele queria
chegar? Ficar relembrando de como ele me fez gozar e pirar não era o melhor
assunto para aquele jantar, pior ainda porque Louis estava ouvindo tudo. Depois
de servirmos o jantar, comemos e ficamos calados por um bom tempo, até que
Gabriel ficou brincando com seu copo de vinho e me perguntou.
- Você realmente não sente nada por
mim? – ele falava enquanto passava o dedo na borda do copo de vinho.
- O que você quer dizer com sentir? –
tentei escapar.
- Não se faça de ingênua... Você não é
nem um pouco ingênua! – ele sorriu.
- Sinto raiva, ódio, nada muito
diferente do que você já tenha imaginado.
Certo... Raiva e ódio? Eu poderia ter
gritado pra ele que sentia amor, tesão, saudade, vontade, prazer e mais um
bilhão de coisas. Mas eu não podia dar todo esse privilégio para ele.
- Amor e ódio então? – ele perguntou.
- Eu não usei a palavra amor... –
estremeci.
- Mas pensou... – ele percebeu que a
garrafa de vinho havia acabado – você tem mais desse vinho? Pelo menos você tem
bom gosto para bebidas...
- Claro, tenho na cozinha! Vou pegar
para você. – respondi gentilmente tentando fugir do “você pensou em amor
Margareth” que ele quis dizer.
- Não! Fique ai, eu pego, não se
incomode. – ele sorriu e levantou-se.
- Está no canto da cozinha, a minha
adega.
- Certo. – ele foi andando até a
cozinha.
O que eu disse? O que eu fiz? Será que
dei todas as pistas de como eu estava me sentindo? Eu devia ter me comportado
diferente. Que droga! A essa medida do tempo eu já tinha quase entregado tudo
com o meu nervosismo. E só fiquei esperando ele trazer o vinho, que pareceu
demorar um século. De repente escutei um barulho de garrafa quebrando e gritei
“Gabriel? Está tudo bem?” ele não me respondeu.
Levantei-me da mesa preocupada e
peguei a minha arma de baixo da cadeira. Fui andando lentamente até a cozinha e
me deparei com a garrafa na mão de Louis.
- Mas o que é isso? – perguntei.
- Está feito! Agora você está livre
Sra. Maggie! – respondeu Louis.
- Livre?
- Ele deve ficar apagado por uns dez
minutos, então você tem esse tempo para dar um fim nele.
- Louis! O que está acontecendo? Ele é
seu neto, você não ia conversar com ele? Porque fez isso? – eu só conseguia
perguntar e querer respostas – E porque diabos você “apagou” ele?
- Não acredito que com tantos anos de
golpes você realmente acreditou em toda aquela história. Eu jurava que você era
um pouco mais esperta a ponto de ficar brincando sobre tudo aquilo que disse. –
Louis abriu um sorriso e apontou uma arma para mim.
- Você só pode estar brincando.
- Abaixe a arma... – ele olhou para
mim e atirou no canto da porta – Ande! Abaixe!
- Certo! Não precisa estressar... – eu
joguei a arma no chão – Então você quer que eu o mate? Ok, eu faço!
- Você acha que me engana Margareth? –
ele riu – Acha mesmo? Você o ama!
Louis caminhou rapidamente até mim e
apontou a arma para minha cabeça. Ótimo! A única pessoa que eu pensei que
pudesse confiar acabará de me apunhalar pelas costas. Mas que estúpida! Tudo
por um momento me pareceu tão obvio e eu deixei passar. O que eu faria então?
Ele me levou até o quarto e antes que eu pudesse pensar tudo ficou escuro.
Acordei com a cabeça doendo. Eu
parecia meio tonta e ainda tentava me encontrar em que local exatamente eu
estava. Pisquei meus olhos umas cem vezes até perceber que estava no canto do
meu quarto e minha cabeça sangrava. Ótimo! Mais uma cicatriz para coleção.
Olhei para frente e lá estava Louis. Sentado em uma cadeira olhando e sorrindo,
como se me ver ali, quase desmaiada o desse prazer.
- Qual é o seu joguinho hein? –
perguntei.
- Não tem jogo. Você foi tola o
bastante para se apaixonar pelo golpista que matou toda a minha família.
- Sua família? – me espantei – Não
venha com essa de contar mais histórias mentirosas para mim.
- Não preciso contar se você não
quiser...
- Agora desembucha. – eu passava a mão
na cabeça – Posso lavar isso pelo menos?
- É obvio que não! Enfim, o que você
quer saber?
- Porque ele matou toda a sua família?
Louis levantou-se e se aproximou de
mim. Agachou, colocou a mão no meu queixo segurando-o e sorriu.
- Matou minha mulher, filhos, mas só
sobrou uma das minhas filhas, que havia fugido quando mais nova.
- Certo! Então ele não matou todos!
- Exceto você Margareth Milles... Qual
é a sensação de ver seu pai tanto tempo depois? – ele sorriu e encostou a arma
na minha cabeça.

