Dangerous - Cap 1 à 11.



Prefácio



Homens. Talvez seria essa espécie a que eu mais odeio. Não, eles não são seres humanos. Provavelmente monstros que nos fazem sofrer como escravas. Sobrevivo dessa espécie diferente. Meu trabalho nada menos é do que dar a eles o que eles realmente merecem. Alguns dizem que sou perigosa. Será mesmo eu a perigosa? Acho-me a vítima, mas cada um tem sua opinião.

Lido com eles desde os meus treze anos. Meu pai sempre bebia e chegava em casa nervoso. Batia na minha mãe e sempre quando podia, batia em mim e em meus irmãos. Vivi como serva. Minha mãe então parecia uma escrava comprada. Talvez eu esteja tendo um senso crítico muito maior do que o normal, mas essa era a realidade que se passava na minha casa.

É interessante que cada um saiba o que aconteceu comigo e o que me fez me tornar o que sou hoje. Não tenho ódio, mas tenho prazer em sentir o gosto da vingança quando estou com aqueles homens, faço deles bichinhos, insetos.

Não mexo com espécies inocentes. 0,01% tem sim um bom senso e não são culpados por terem nascido homens, mas procuro encontrar aquele com um ponto frágil. Ricos, empresários, bancários, advogados, juízes, jornalistas. Todos são iguais. Sempre com as mesmas atitudes, os mesmos extintos.

Já perceberam como o homem faz da mulher a sua presa? Interessante não é? Mas eu faço o contrário, faço dele a minha presa. Faço dele um coelho indefeso, um veado correndo de um leão louco para encontrar seu bando e se salvar. O problema é que eu nunca deixo a minha presa escapar.



Capítulo 1 - O Por que.


Na minha infância eu nunca tive luxo, agora tenho mais do que preciso. Um apartamento grande em uma ótima Avenida de Nova York. Televisão de plasma, sofá preto de couro. Mesa de vidro e várias estantes brancas. O mais moderno possível.

Em cada estante uma recordação de um golpe. Carteiras, bolas de golfe, diamantes e até algumas espadas. Samurais são bem atrevidos em Nova York, e sempre sou eu quem acaba dando um jeito neles.

Assim como eu, você deve estar se perguntando por que trabalho com isso. O porquê dou golpes em homens indefesos. Na verdade, nenhum deles é indefeso e nem eu sei o que realmente estou fazendo. Talvez protegendo mulheres que nunca tiveram esperança, traídas, e sem vontade de viver. Atoladas em salões de cabelereiros e lojas como Dolce&Gabbana. Na realidade essas mulheres se sentem mal amadas. Mal cuidadas.

Quando eu tinha meus 10 anos meu pai fez uma coisa que eu jamais esquecerei. Ele olhou para minha mãe na cozinha e em seguida veio falar comigo. Sua expressão era diferente, hoje sei que ele me olhava com prazer “Venha comigo até o quarto Margareth.”  Disse ele abrindo um belo sorriso. Inocente, subi. Ao chegar no quarto, meu pai estava deitado na cama. Olhou para mim e piscou. “Deite com o papai minha filha, aqui!” Ele batia a mão na cama. Senti-me estranha naquele momento, mas deitei ao lado dele. “Papai, não estou com sono. Podemos dormir mais tarde, hoje é sábado!” Exclamei. “Confie em mim Maggie, eu farei você feliz.”

Eu confiei. Juro que confiei e me sinto mal por lembrar-me disso. Meu pai colocou a mão em meu peito me acariciando. Descia a mão cada vez mais e me olhava maliciosamente. Eu engoli a seco e parei de respirar. O que ele estaria fazendo? Eu tinha apenas 10 anos. Ele tocou onde não devia. Eu sabia que ele queria abusar de mim. Gritei o mais alto que pude. Chamei minha mãe e meus irmãos. Meu pai raivoso prendeu minhas duas mãos segurando-as com força. Olhou para mim e disse: “Eu te amo! Não farei mal a você Maggie!”.

A raiva falou mais alto do que eu e consegui me soltar. Peguei a primeira coisa que vi pela frente. Um canivete. Enfiei aquilo em meu pai com tanta força que me lembro de que a cada facada. Me lembrava da minha mãe gritando de dor, sofrendo, de meus irmãos querendo fugir de casa, me batendo e principalmente dele tocando em mim.

Minha mãe e meus irmãos chegaram ao quarto tarde demais. Tentaram me conter, mas não conseguiram. Meu irmão mais velho me olhava com um olhar de agradecimento pelo que eu havia feito, mas minha mãe não. Ela gritava como se eu tivesse feito algo de errado. Como se eu não estivesse a defendendo. Hoje entendo que minha mãe amava meu pai e que gostava de apanhar, assim como muitas mulheres gostam hoje.

Não fui presa porque fugi, mas tenho certeza que se eu continuasse em casa, minha mãe me denunciaria e seria meu fim. Entrei num mundo que eu nunca queria ter entrado. Comi restos de comida. Alimentei paixões doentias de homens mal amados, e me tornei uma golpista. Diria talvez a mais procurada de Nova York, mas nunca deixo que me peguem. Por quê? Porque Não deixo provas. Não faço isso porque estou me divertindo e sim porque de algum modo quero alimentar o meu sentimento mais louco. A vingança.

Alguns me chamariam de louca, outros de psicopata e alguns até de assassina. Mas por quê? Se as pessoas que me procuram são suas próprias mulheres? Elas procuram vingança, e eu, apenas fabrico.

Gosto do que faço. Não recomendo a vingança para ninguém. Só quem entende mesmo desse sentimento sabe como é lidar com ele. Eu, uma ótima golpista modéstia parte sei com o que estou lidando, e acredite, lidar com isso pode ter muitas consequências ruins.

Às vezes me pego chorando. Talvez porque não tenho ninguém do meu lado, mas sei que há muitas coisas materiais que podem me preencher. Compras por exemplo. Porém, queria ser normal às vezes. Queria ter minha mãe comigo, meus irmãos, queria que meu pai nunca tivesse me tocado. Queria que homens fossem honestos para que eu pudesse ter meu marido. Meus filhos.

Meu telefone toca. O pego rapidamente e atendo. Era mais uma cliente. Desta vez se chamava Sarah e queria que eu desse um susto em seu marido. Um susto diferente dos outros. A pedido dela, eu teria que entrar em sua casa como ladra e sair como vítima. Um dos meus casos mais difíceis. Teria que fazer dela minha refém e segundo a mesma, eu poderia machucá-la. De forma que seu marido percebesse o quanto ela era importante para ele, o quanto ele precisava dela.

Era final de tarde de quarta-feira. Peguei um táxi e fui até o local do trabalho. Um hotel, na Times Square. Entrei no mesmo e passei-me por uma hóspede. Lilá Clinton. Sem maiores dificuldades, fui até o balcão, peguei a chave e fui subir para o meu quarto. Seis e meia em ponto. Identifiquei a vítima. Joshua (o marido de Sarah) estava prestes a subir no elevador.

Entrei no mesmo instante que ele. Levantei minha saia até um ponto em que ele pudesse ver que eu queria muito mais do que um simples “Olá” no elevador. Joshua me perguntou se eu estava hospedada no hotel. Respondi que sim e perguntei se ele era casado. Ele afirmou e eu pude entrar em ação.

É claro que ele não resistiu ao meu charme. Levou-me até seu quarto e me passou a chave do quarto. Eu mesma abri. Entrei primeiro e larguei minha bolsa na poltrona. Fui para suíte e deitei sobre a cama. Abri minhas pernas e esperei que ele se surpreendesse.

Ao ver minha calcinha, Joshua entrou em delírio. Claro. Então eu o parei por um instante.


- Espere querido! - Tentei deixar um gostinho de quero mais.

- Não quero esperar... Nenhum segundo!

- Leve-me para outro lugar! Sua casa, o que acha?

- Nunca! Minha mulher está lá!

- Medo de desafios Joshua? - Passei as unhas sobre minha coxa - Essa hora ela deve estar em um SPA, ou até mesmo fazendo compras em Paris. Você não é rico? Ela não está perdendo tempo em casa querido! Eu não perderia.  - Eu mordi meus lábios.

- Tudo bem! - Ele pareceu engolir a seco - Vamos!  


Mais fácil do que eu imaginava. Pensei que ele fosse acabar com a minha graça quando sugeri que fossemos para sua casa. Mas não, homem infiel aceita qualquer coisa.

Ele me levou na sua BMW conversível. Eu o convencia cada vez mais de que estava louca para me entregar a ele naquela noite. Passava a mão sobre o corpo dele todinho enquanto ele dirigia. Sorte minha que não bateu o carro, porque vi em seus olhos que estava ficando louco de prazeres por mim.

Chegamos a sua casa. Sai do carro antes que ele e lhe fiz uma proposta irrecusável.


- Josh!  - Eu sorri.

- Sim?

- Posso entrar antes e te fazer uma surpresa?  - mordi meus lábios.

- Mas eu nem sei seu nome!

- Lilá.

- Nos conhecemos hoje Lilá! Não posso confiar!

- Como não Josh? Olha, te dou minha bolsa exclusiva da Dolce&Gabanna, meu relógio Rolex edição limitada, meus sapatos...

- Tudo bem, chega!  - Ele acreditou na tolinha - Pode entrar! - e me entregou as chaves.



Mais fácil do que eu imaginava mais uma vez. Imitar a tolinha sempre dá certo. Fiquei olhando para ele com cara de quem estava interessada, subi as escadas e abri a porta de sua casa.

- Quando estiver pronto eu te chamo “Joshzinho”. - Gritei.

Entrei devagar e vi Sarah a esposa de Josh sentada na sala. Ela me olhou com uma cara de dor, de tristeza, que eu nunca tinha visto antes.


- Consegui Sarah! - Exclamei.

- Obrigada! O que fazemos agora?

- Terei que te prender nesta cadeira e amarrá-la. Depois, chamarei Joshua e direi o quanto eu quero de dinheiro. No nosso caso, o pagamento. Farei um corte com pouca dor no seu pulso que irá sangrar muito e depois disso fugirei. Mas saiba que depois que eu fugir Joshua não pode vir atrás de mim e você terá que fazer sua parte.

- E o que devo fazer?  - Sarah perguntou.

- Gritar por ajuda! Chamar Joshua. Dizer que não quer morrer. Pedir para que ele fique contigo. Assim, ele sentirá o quando você precisa dele e o quanto ele precisa de você!

- Certo!


Sarah levantou-se do sofá e pegou uma cadeira. Amarrei-a e peguei uma faca bem afiada. Em seguida gritei o nome de Josh da forma mais sensual possível. Ele parecia ter vindo correndo e quando entrou em casa simplesmente parou como uma estátua.


- O que está fazendo? - Ele gritava. Eu dava gargalhadas e Sarah chorava desesperada. Com um marido desses, chorar não seria difícil. Joshua tentou se aproximar e eu disse para ele não fazer aquilo. Um passo e Sarah ficaria sem cabeça.



- Deixe-a em paz!  - Josh gritava desesperado -  Me pegue! Prenda-me! Mate-me!

- Não!  - Sarah gritou.

- Cale a sua boca! -  eu dei um tapa em Sarah, confesso que doeu em mim -  Joshua... Joshua... Tão tolo!

- Droga! - Ele colocava as mãos na cabeça.

- Não adianta lamentar-se agora querido!

- Largue-a! Diga-me o que eu tenho que fazer para que você a solte.

- O que você tem que fazer?  - Pensei - Bom... Dinheiro não é problema. Quero quinze mil dólares agora!

- Quinze mil dólares? - Joshua gritou - Você está ficando louca! Não sou uma mina de dinheiro!

- Pague Josh! Pague! - Sarah gritava.

- Quer pagar mais caro? - Perguntei - Posso arrancar a cabeça dela. Ou melhor, posso começar pela orelha e depois pelo nariz...

- Pare! - Ele gritou - Certo! Quinze mil dólares!

Ele pegou seu laptop e entrou no site de seu banco. Fez o depósito rapidamente em minha conta. Josh me olhava assustado sem entender o que havia acontecido.

- Pronto! Seu dinheiro já está onde devia! Agora a solte!

- É claro! Cumpro meus tratos! - Eu olhei para Josh com um olhar intenso, e sorri, passei a faca sobre o pulso de Sarah.

- Não! - Ele gritou e pulou em cima de mim.



Maldição! Estava muito fácil. Ele me deu um murro no rosto, mas, nada que um bom chute no saco não pudesse resolver. Levantei-me rapidamente e saí correndo pela porta. Entrei no BMW e o último som que escutei foi Sarah pedindo ajuda a Joshua.

Corri o mais rápido que pude pela cidade. Já eram onze da noite e parecia que tudo havia acontecido em pequenos segundos. Parei em um caixa eletrônico de grandes retiradas e peguei uma sacola. Tirei os quinze mil reais da conta que eu havia criado a menos de 24 horas.

Saí de lá com a sacola cheia. Abri o capô da BMW, taquei fogo no tanque de gasolina e saí andando pela calçada. Trinta segundos depois sinto um calor e uma explosão. Era o fim de mais um caso. Mais um homem aprendendo a sua lição, mais uma fabricação de vingança.





Capítulo 2 - Os Diamantes.


Acordei cansada. Fisicamente e psicologicamente. Não é todos os dias que corto pessoas inocentes ou dou um tapa em minhas clientes. Levantei-me e fui para a cozinha. Liguei a máquina de café, peguei uma compressa de gelo, coloquei no meu olho roxo e liguei a televisão.

“Good Morning America” era meu programa favorito e estava passando. Catherine sempre dá as noticias com uma ótima entonação. Adoro quando ela conta casos polêmicos como assassinatos, roubos, e até sequestros. Mas tenho ódio quando o centro das atenções tecnicamente sou eu.

“Parece que A Perigosa voltou a atacar de novo. A nossa mais nova vítima foi Joshua Phillips.“ Dizia a jornalista. Ótimo, eu teria que mudar de novo. Odeio quando isso acontece.

Desliguei a televisão e corri para o interfone. Liguei para o porteiro do prédio e perguntei se havia algo para mim na portaria. Ele disse que não. Ótimo, menos um problema. Desliguei e fui correndo para o telefone. Não é fácil encontrar uma secretária que preste. Eu sempre tenho que me virar com minhas próprias mãos. Liguei para o cabeleireiro e marquei um horário.

A este ponto eu não poderia descer de elevador. Coloquei meu jaleco preto e desci rapidamente pelas escadas. Saí do prédio cansada. Tentei disfarçar o nervosismo. Peguei o primeiro táxi que vi pela frente e entrei.


- Parece que já te vi em algum lugar... - Disse o taxista intrometido.

- Dizem que eu pareço a Angelina Jolie - Respondi.

- Não acho que você se pareça com ela - ele disse.

- Então não sei com quem está me comparando! - Exclamei.


Parecida com a Angelina Jolie? É o fim do mundo. Mas eu tinha que disfarçar de alguma forma. Desci na Times Square. Fui correndo para uma ótica arranjar boas lentes de contato. Azul? Não. Castanho? Muito popular. Cor de mel? Perfeito!

Da ótica fui direto para o cabeleireiro. O que eu faria no meu cabelo? Qual tipo de mecha? O que atraia os homens naquela época? Cabelo chanel e preto. Dito e feito. Depois, um “desbronzeamento” deixando minha pele quase branca como leite. Incrível como em horas eu conseguiria me tornar outra pessoa.

Era dia de trabalho voluntário. Ou seja, fazer meu trabalho por livre e espontânea vontade. Eu não estava satisfeita com aqueles quinze mil dólares. Eu precisava de mais. Minha próxima vitima? Paul Maker. Um banqueiro famoso de New York que no momento parece não ter muitas companhias.

Mal ele sabia que hoje ele não iria chamar uma prostituta e sim uma golpista. Entrei em contato há uma semana com o bordel onde ele chama as garotas e reservei para mim o horário de hoje. Um velho gagá como ele iria adorar uma morena branquinha, com pele quente e lábios vermelhos. A diretora do bordel me ligou e disse o local onde ele estaria. Hotel Livington, quarto 146. Ele já estaria me esperando.

Cheguei ao hotel animada. Dinheiro não iria faltar. Passei na recepção e o atendente me disse que ele já me esperava. Ótimo. Entrei no elevador e subi até o décimo quarto andar. Enquanto procurava o quarto uma camareira ficou me olhando. Parecia que procurava algo em mim. Olhei para ela com uma cara de “Vá cuidar da sua vida! Pobre!” E ela parou de bisbilhotar a minha.

Encontrei o quarto e dei três batidas bem de leve. Uma voz gritou para que eu entrasse. Entrei e tranquei a porta. Dei quatro passos e lá estava ele. Sentado na poltrona degustando um Whisky. Esse era Paul. O milionário de New York, na minha frente, prestes a cair em meus pés.



- Olá! - Coloquei minha perna sobre a mesa deixando-a a mostra - Pronto para a noite mais longa de sua vida?

- Oh lindinha! - Ele me abraçou - Dá um beijo no papai!


Aquilo me deu nojo. Um nojo enorme. Ele parecia meu pai falando comigo. O beijei, por mais que não quisesse. Parecia que eu estava chupando um maracujá azedo e bem enrugado (e não estava?). Deitei logo ele na cama. Queria acabar com aquilo o mais rápido possível. Deixei o velhaco nu. E eu ainda estava vestida.

Ele implorava para que eu fizesse um strip-tease para ele. Tirei meus sapatos, depois minha meia calça. Eu não podia mais fazer aquilo. Engoli a seco. Ele lembrava muito o meu pai. Já fiz trabalhos piores que esse, mas Paul me olhava da mesma forma que meu pai.

Eu precisava acabar logo com aquilo. Pulei em cima dele e amarrei seus braços e pés na cama. Parecia até um franguinho. Levantei-me e o vendei.


- O senhor vai adorar a surpresa que eu preparei para você!  - Falava enquanto mastigava um chiclete.

- Vou é filhinha? Vem para o papai!


As palavras daquele velho soavam como facadas em meu peito. Não aguentaria se ele me chamasse mais uma vez de filhinha, ou falasse papai! Entrei no banheiro e lavei meu rosto. Eu era mais forte que isso. Não iria desistir.

Saí do banheiro e fui direto para o armário do velho. Tirei todas as roupas de seu armário e as joguei pela janela, inclusive a que ele vestia. Comecei a procurar nas gavetas algo que me interessasse. Encontrei um relógio. Rolex com diamantes. Parecia nunca ter sido usado, ainda estava na caixa.



- Porque está demorando tanto minha filhinha?  - Ele gritou - Venha me satisfazer!



Eu disse. Eu avisei a minha consciência que não queria mais ouvir a palavra filha. Enfiei o Rolex na minha bolsa e fui à direção daquele velho. Subi na cama e coloquei o pé no saco dele. Pressionei levemente.



- Filha? Sou sua filha por um acaso?

- Ai como você é carinhosa!  - Ele dizia - Nunca tinha pegado uma Sadomasoquista!

- Cale a boca! - Pressionei mais - Não sou sadomasoquista! Sou muito pior do que isso vovô!

- Não me chame de vovô! Chame-me de papai, de titio!  - Ele dava gemidas de dor.

- Papai!  - Eu gritei e pressionei o mais forte que pude, ele berrou.



Tampei sua boca antes que alguém pudesse ouvir mais alguma coisa e piorar minha situação. Isso não era recomendado. Coloquei a fita na boca dele e continuei procurando por coisas em seu quarto.

Carteira, anéis de ouro. Nada muito mais extravagante que isso. Droga! Hoje não era um bom dia de trabalho. Não mesmo! Até que então eu avistei um fundo falso em seu armário. Dei alguns chutes e consegui quebrar a madeira. Encontrei uma mina de ouro. A mina de ouro que eu precisava para fazer da minha vida um luxo.

Um saco cheio de diamantes com cerca de um centímetro cada um. Soltei uma gargalhada de felicidade. Não pude me conter. E o velho conseguiu arrancar a fita de sua boca.



- Socorro! Socorro!  - Ele gritava.

- Eu mandei você calar a boca!  - Saí correndo e subi em cima dele.

- Saia de cima de mim sua vaca!  - Ele continuava gritando.

- Vaca?  - Dei um murro em seu rosto -  E você? Mal amado... Mal cuidado... Mal educado! 

Paul tinha a voz e o olhar do meu pai. Eu o mataria? Eu deveria matá-lo? Peguei meu telefone e liguei para Stephanie, a mulher de Paul. Eu ainda estava sentada em cima dele.

- Stephanie? - Perguntei.

- Sim!  - Ela respondeu.

- Sou eu!  - Eu ri - Estou com Paul aqui e você não vai imaginar do que ele me chamou querida!

- Do que?  - Ela perguntou rindo.

- De vaca!

- Nossa!  - Ela se surpreendeu.

- Você está falando com a Stephanie? Minha mulher? - Paul interferiu.

- É sim, a Stephanie! Pare de me interromper nojento!  - Voltei a falar com Stephanie - Mas então Stephanie... Faço isso como trabalho voluntário ou posso acabar com tudo isso aqui? Eu encontrei os diamantes!

- Acabe com ele! - Ela falou nervosa.


E esta foi a ultima coisa que Stephanie falou. Matá-lo? Sim, eu tive que matá-lo, mas não poderia deixar provas. Sacrifiquei Paul com apenas uma injeção. Coitado. Tão inocente ele parecia ser. Stephanie tinha razão. Ela tinha que matar o marido. De um trabalho voluntário, eu acabei virando uma milionária.

Vesti minha meia calça e meus sapatos. Desamarrei Paul e o coloquei como se estivesse dormindo na cama. Peguei os diamantes e as demais coisas. Fechei o armário e tranquei. Guardei a chave na minha bolsa. Saí do quarto de fininho.

A camareira ainda estava lá, me observando. “O que foi? Perdeu alguma coisa?” Perguntei nervosa. Ela não respondeu e voltou a seu trabalho. Com certeza queria saber o que estava acontecendo lá dentro. Ela deve ter escutado os gritos e com medo chamou a segurança. Corri para o outro corredor. Não podia descer o elevador mais uma vez. Procurei um duto de ar. Não encontrei, porém achei uma sala de equipamentos. Entrei nela rapidamente e olhei para cima. Lá estava o duto de ar. Peguei uma chave de fenda e desparafusei. Entrei no duto e fui engatinhando devagar até conseguir achar uma saída.

Alguns me chamariam de louca, outros de psicopata e alguns até de assassina. Mas por quê? Se as pessoas que me procuram são suas próprias mulheres? Elas procuram vingança, e eu apenas fabrico.





Capítulo 3 - Ibiza.



Eu não queria levantar. Não depois daquele sonho. Sonho? Pesadelo. Ele estava lá. Meu pai e me tocou novamente. Desta vez eu estava presa, deitada em uma cama, como as minhas vítimas. Ele não parava de repetir “Gosta disso? Suas vítimas não gostam!”.

Saí logo da cama. Eu precisava esquecer tudo. Fui para sala, liguei a televisão e fui preparar um café. Fui até a dispensa e abri o armário. Encontrei um bilhete. “Gosta disso? Suas vítimas não gostam!”.  Eram as mesmas palavras que meu pai usou no pesadelo. Antes que eu pudesse me virar uma faca entrou nas minhas costas. Eu não conseguia respirar.

Cai no chão quase morta. Via a maioria das coisas embaçadas. Olhei para cima. Era meu pai. Ele estava lá. Rindo da minha cara. Eu queria dizer tantas coisas para ele naquele momento, mas eu não tinha fôlego o suficiente. Simplesmente fechei os olhos e deixei com que me levassem.

Eu pulei da cama. Literalmente pulei. Aos berros. Corri para o banheiro e virei-me de costas para o espelho. Eu não estava cortada. Eu estava viva! Um pesadelo dentro do outro. Quem diria. Não era a primeira vez. Já tive experiências muito parecidas.

Estava com medo. Pela primeira vez em toda minha vida. Eu não conseguia me aproximar da dispensa, pois a imagem sempre vinha a minha cabeça. E se ele estivesse lá? E se eu realmente não tivesse o matado há 15 anos atrás? Ele com certeza voltaria para se vingar.

Uma semana depois eu estava fora daquele apartamento. Meu novo destino? Ibiza, Espanha. Uma cidade cheia de orgias. Ali era o meu lugar. Os mesmos bancários, jornalistas, advogados e outros homens da alta sociedade iriam para lá, com seus jatinhos, fazer a festa durante seus finais de semana. Era só uma semana que eu iria passar por lá. Ganhar um dinheiro sem necessidade e depois disso, voltar para casa.

Arrumei-me o máximo que pude. Salto, vestido curto e preto, peruca loira, lentes azuis. Tudo naquele micro apartamento que eu havia alugado. Um lugar nojento. Mal cuidado e bem no centro da cidade.

Saí do apartamento como uma madame. Quem me visse sair daquele lugar com certeza iria pensar que eu era alguma mal amada que acabou de transar com um prostituto europeu. Muito básico para o meu gosto.

Meu espanhol estava afinado. Nada melhor do que crescer procurando livros e lendo-os para se tornar alguém na vida. Não tenho estudo completo no colégio, mas tenho pós-graduação no ensino da vida.

Cheguei a uma boate. Homens por todos os lados e de todos os tipos. Nojentos, bem arrumados, cheirosos, fedidos, mal amados. Fui até o balcão e pedi uma dose. Tequila. A noite estava ótima. Eu precisaria de um ótimo incentivo. Peguei a primeira dose e virei. Magnífico. Nada melhor do que a boa tequila espanhola. A melhor do mundo em minha opinião.

Um homem jovem se aproximou. Maldição. Sentou-se do meu lado e parecia me comer com os olhos. Pedi mais uma Tequila e olhei de canto para ele. Olhos azuis, loiro, lábios carnudos. Que mulher não seria seduzida por ele? Ele estava me dando bola. Talvez se ele fosse de algum tipinho rico eu até poderia dar um golpe nele. Então, entrei em ação.

Passei as unhas sobre o balcão e virei mais uma dose de Tequila. Desta vez, olhei para ele nos olhos. Ele retribuiu o olhar com um sorriso.



- Nova em Ibiza?  - Perguntou-me.

- Sim! Na verdade, só vim passar alguns dias. Esfriar a cabeça!

- Interessante! - Ele estendeu a mão - Muito prazer, eu sou Gabriel!

- Margareth! - Peguei em sua mão cumprimentando-o.

- O que uma bela dama faz sozinha nesta boate?  - disse sorrindo.

- Uma bela dama?  - Eu abri um sorriso, ele parecia querer ser um cavalheiro, ora, que belo, talvez eu devesse acreditar realmente nele - Que cavalheirismo de sua parte me chamar de dama. – Olhei-o nos olhos – Bom, na verdade estou aqui para me divertir. Afinal, a noite é uma criança! – mordi meu lábio enquanto o olhava.

- Se divertir? Não é Espanhola creio eu!

- Não! Sou Americana, mas, amo a Espanha. Considero minha segunda casa.

- Que interessante! E porque sua segunda casa?

- Na verdade, meu pai é um grande empresário americano e sempre está atrás de alguns eventos aqui na Espanha. Passei parte da minha infância aqui. Nada além de uma dança espanhola. – dança espanhola, que clichê. Eu precisava estudar mais sobre isso.

- Um pouco clichê de sua parte dançar dança espanhola! Mas acho interessante! Poderia dançar para mim?

- Agora? – entrei em pânico.

- Sim! Agora! – ele abriu um sorriso – Sempre tive curiosidade em saber como se dançava. Eu, um espanhol legítimo não faço a menor ideia de como se dança. Não consigo!

- Não! Agora não! – abri um sorriso envergonhado. Maldito, pensei – Tenho vergonha, não posso dançar aqui!

- Ora, que pena! Adoraria te ver dançar. – disse pegando em minha mão.

- Imagino! Mas prometo que um dia dançarei – o que? Um dia dançarei? Eu não estava pensando.

- Você tem olhos lindos! – ele colocou a mão no meu rosto observando meus olhos.

- Obrigada! Mas olhe quem fala... Seus olhos azuis. Muito mais bonitos do que os meus! –eu fiquei envergonhada.

- Mas seus olhos são azuis! Um pouco mais escuros que os meus, mas ainda assim belíssimos! – ele não tirava o sorriso do rosto.

- Não! Meus olhos são castanhos! – ele fez cara de espanto e então eu me lembrei que estava de lente.



Aquele homem estava me causando problemas. Eu não conseguia me concentrar e estava literalmente desmanchada por ele. Não falava direito e ao menos pensava. Maldito. Homem nenhum me tratou daquele jeito antes. O que eu poderia fazer? Levá-lo para a cama e simplesmente roubá-lo?

Todos os homens com quem eu já trabalhei nunca se comportaram de tal modo. Eu não poderia machucá-lo! Parei. Pensei. Eu estava desenvolvendo sentimentos. Eu não podia me apaixonar por ele, nem ao menos podia achá-lo legal. Eu ia cumprir meu trabalho. Custe o que custasse.



- Desculpe, mas não estou entendendo você! – ele fez cara de espanto.

- Eu que lhe peço desculpas! Na verdade, tenho olhos castanhos! – consegui concertar meu erro – Mas estou usando lentes hoje. Havia me esquecido. Esta tecnologia está tão avançada que você nem sente mais nada em seus olhos.

- Ah sim! Entendo! – ele deu risada – Mas para ser sincero, não acho graça em olhos claros. Gosto dos escuros. Castanhos, ou cor de mel.

- Interessante seu gosto! Diferente de todos que eu já vi! Nunca conheci ninguém que admirasse olhos castanhos!

- Creio que sou um homem um pouco diferente.

- Diferente o bastante para seduzir uma mulher, creio eu.

- Está interessada em mim?

- Não devo contar o que penso sobre você! – abri um sorriso.

- E eu? Será que eu devo contar o que penso sobre você? –  ele dava um sorriso de canto.

- Não sei! Talvez o que você diga faça alguma diferença. – eu o comia com os olhos desta vez.

- Penso que adoraria passar esta noite com você! Te conhecer melhor. O que acha? Podemos ir a um lugar mais reservado. Um restaurante talvez!

- Acho uma belíssima ideia! Não creio que parte deste muquifo esteja aos meus pés.

- Eu sabia que você era algo maior do que alta sociedade.

- Hã? –  eu não havia entendido.

- Nada! Vamos! – ele pagou minhas doses de tequila, pegou na minha mão e foi em direção a porta da boate.



Ele queria me conhecer melhor... Me conhecer melhor até que ponto? Aquele homem, garoto, jovem, não sei dizer. Ele era uma mistura de tudo. Maduro, jovial e simpático. Não imaginava que existissem homens desse tipo. Muito menos que fosse encontrar um Espanhol com tais características.

Tudo estava só começando, a noite parecia ser longa. Ele me levou na sua Mercedes. Um carro divino, que eu particularmente gostaria de ter uma coleção. Entramos em um restaurante cinco estrelas. “Pardon”. Ele estava me levando em um lugar de nível. Era rico com certeza. Nos sentamos à mesa e ficamos observando o cardápio.



- Gosta de lagosta? – perguntou.

- Particularmente? – eu escondi minha boca no cardápio – Eu amo! Odeio ser indelicada, mas acho que devo ser sincera.

- Gosto de mulheres assim! – ele abriu um sorriso – Por Favor, garçom! Uma lagosta! Mande o Chef. Vitorrio preparar a melhor lagosta que ele já fez em sua vida! – o garçom anotou o pedido e saiu.

- A melhor lagosta? É um bom freguês deste lindo restaurante, creio eu.

- Na verdade sou o dono!

- Dono? – espantei-me – Interessante! Pela primeira vez conheço alguém cujo seu grande negócio é um restaurante.

- Pois é! Amo comida! Sou um Chefe. Mas, preciso me cuidar. Se eu ficar atrás da bancada preparando refeições eu não resistiria e levaria tudo isso a falência.

- Alimenta-se bem então...?

- Muito bem! – ele abriu um sorriso.

- Mas então, conte-me mais sobre você! Nasceu onde?

- Nasci aqui mesmo, em Ibiza. Meus pais vieram morar aqui logo quando se casaram. Minha mãe é Holandesa e meu pai Norueguês. Uma mistura um tanto estranha, creio eu, mas ainda assim, são ótimas pessoas e eu gosto daqui.

- Que incrível! Sou descendente de Belgas. Meu bisavô era belga.

- E você nasceu nos Estados Unidos? Um pouco clichê! Belgas não são muito familiarizados com os americanos.

- Eu sei! Faço ideia de todo este problema. Meu avô era refugiado de alguma guerra idiota que eu não faço a mínima questão de saber. Mas, o que sei é que minha mãe casou-se com meu pai. Um americano. E logo depois fugiu para “A terra onde todos sonhos acontecem” Ou seja, New York, porém, nasci em Las Vegas em uma viagem curta.

- Las Vegas? Interessante! Viciada em algum tipo de jogo?

- Nenhum! Apesar de ter nascido na cidade do Cassino, não gosto. Acho perda de tempo.

- Vou ter que discordar com você! Amo Cassinos. São uma ótima distração.

- Acho mais uma perda de dinheiro se é que me entende...  – retruquei.



Eu nunca tive uma conversa de rendesse tanto com qualquer vítima. E não consegui compreender como estava me dando bem contando aquele monte de mentiras! Seriam histórias que eu nunca mais teria que lembrar, afinal, tudo aquilo era para durar uma única noite. Não é?









Capítulo 4 - Louis.



Gabriel estava caindo no meu joguinho. Ficou louco por mim, mas, diferente dos outros não pediu meu telefone e me deu o dele. Pediu para que eu ligasse quando quisesse vê-lo de novo. Eu, com delicadeza disse que ligaria em breve. Mas era ai que o problema estava só começando.

Eu não havia decorado nenhuma das histórias e nem informações que eu contei a ele. A não ser que meu pai era um empresário, fora isso, não me lembro de nada. E se no próximo encontro ele me perguntasse algo?

Já não conseguia trabalhar como antes. Eu estava deixando falhas em todas as partes. Entregando meu real nome, contando histórias banais e não decoradas, mas acima de tudo, fazendo com que aquele homem me dominasse.

Precisava pensar bem. Revisar todos os meus golpes. Não posso desenvolver sentimentos, até porque nem sei quais são eles. Não sei como é amar. Muito menos o que o amor nos causa. Nunca senti saudade. Dizem que é quando você sente falta de uma pessoa e que seu coração pode até chegar a doer. A única coisa, o único sentimento que eu poderia dizer que entendo muito bem é a raiva.

Raiva pode parecer algo ruim, mas para mim, que não conheço nenhum dos outros sentimentos é como se ela me completasse, tomasse conta de mim. É um prazer inigualável que só eu sinto. Muito melhor que dinheiro, e creio que é muito melhor do que amor.

Sinto raiva do meu suposto pai que sempre fez questão de beber e certo dia me tocou de modo diferente. Sinto raiva da minha suposta mãe que quando me viu ali, salvando a nossas vidas ficou com raiva de mim, mas hoje eu ganho. Tenho muito mais raiva e ódio por ela do que ela poderia ter por mim.

Meus irmãos nunca tiveram culpa de nada, mas também nunca foram presentes. Nunca foram carinhosos. Como eu gostaria de saber o que é carinho, e acho que é por este motivo que não sinto saudade, falta, ou qualquer coisa do tipo.

O importante é que hoje minha vida é outra e não tenho que pedir nada a ninguém. Até conhecer o Gabriel pelo menos. Eu precisava de alguém que fosse um guardião, um segurança. Alguém que pudesse me ajudar a resolver as questões sobre as casas que eu iria frequentar, a arrumação da mesma, roupas, em fim. Eu precisava de alguém ali comigo.

Clarice foi uma das primeiras mulheres que me ensinou a arte dos golpes. A conheci quando eu comecei a trabalhar no bordel. Ela era a dona daquela nojeira, mas, mesmo assim soube me ensinar a como tratar os homens. Como eles se atraíam, do que gostavam, o tamanho dos seios, atitudes na cama, tudo o que você possa imaginar.

Nessa mesma época ela não trabalhava mais no bordel e sim com golpes. O bordel era um hobby para ela. Uma diversão. E certa vez Clarice citou um nome dizendo: “Quando você realmente precisar se organizar chame-o” e me entregou um cartão.

Louis. Europeu e muito bem sucedido. Grande mordomo. Já trabalhou até na família real e acredite, se demitiu por pura vontade. Guardei aquele cartão na minha carteira.

Apesar de sete anos terem se passado o número era o mesmo. Louis atendeu e aceitou o meu pedido. Quando perguntei sobre o seu salário ele simplesmente me interrompeu e disse que eu não devia tocar naquele assunto agora e que estava se direcionando para Ibiza imediatamente.

Parecia FedEx. Mandou, chegou. Rápido o bastante ás oito horas ele estava batendo na porta do meu velho apartamento. Atendi de roupão e com os olhos pequeninos. Elegante, conservado, bonito, charmoso. Este era Louis. Apesar de aparentar uns 80 anos, ele tinha elegância. Comportava-se como um gentleman.

Não sabia como me comportar na frente dele, muito menos o que falar ou o que perguntar. Pedi para que ele se sentasse e fiquei olhando para ele como uma criança que nunca havia visto um doce:



- Margareth certo? – perguntou-me Louis.

- Sim! Mas prefiro que me chamem de Maggie.

- Maggie? Prefere? Pensei que você vivesse sozinha, sem amizades ou envolvimento amoroso.

- Na verdade não tenho amizades, nem envolvimentos, mas não gosto de Margareth, prefiro Maggie.

- Maggie. Não acho uma boa escolha, mas, se é assim que a senhora quer ser chamada...

- Pode me chamar de você. Senhora não, por favor!

- Sinto muito! Estou acostumado a chamar todas as mulheres que eu trabalho de senhora. Então, peço desculpas se chamar você de senhora mais alguma vez.

- Não se preocupe Louis!

- Bom, vamos ao que realmente interessa! Se me chamou, quer dizer que está tendo problema com seus golpes. Acertei?

- Na verdade quase isso. Estou desenvolvendo sentimentos por uma das minhas vítimas e tecnicamente isto não é uma boa ideia!

- Por um acaso já aplicou algum golpe nesta vitima?

- Não, nenhum. Por quê? – estranhei a pergunta de Louis.

- Porque não se arrisca a amar? Talvez seja bom para você!

- Eu nunca amei Louis. Não sei o que é amar. Tenho medo de amar. A raiva e a vingança me fazem sentir um sentimento tão bom, que tenho medo de perdê-los.

- Nunca amou? Que espécie de ser humano você é?

- Com certeza um ser humano que nunca viveu realmente. Clarice não te falou sobre mim? Minha história?

- Margareth certo? Maggie... – ele pensou por uns segundos  Mas é claro! Clarice me falou de você! Incrível! Você ainda esta viva, depois de todo esse tempo trabalhando no bordel...

- Na verdade, agora sou independente! Apenas eu, e eu!

- E mora neste muquifo há muito tempo? – ele mostrou seu lado afetado.

- Na verdade não! Morava em Nova York, mas tive um problema com uma cliente. Então, resolvi passar uns tempos aqui em Ibiza. Tentar algo diferente, uma nova vida.

- Certo... Você tem bastante dinheiro. Não tem?

- O necessário!

- Então comece comprando uma ótima casa. De preferência uma mansão, algo bem bonito, um local um pouco longe da cidade, mas capaz de te dar lazer.

- Não conheço muitas coisas por aqui... Na verdade nada!

- Certo! Deixe comigo Margareth! Se puder confiar em mim, creia que eu irei te ajudar a arranjar tudo o que precisar em 24 horas.

- 24 horas? – me espantei.

- Sou um profissional Margareth! Trabalho com isso há 50 anos.

- Certo Louis. Procure tudo para mim então!





24 horas. Seria tempo o bastante para Louis? Seria. Em menos de 24 horas eu estava morando em uma casa divina, toda decorada e com uma vista incrível para um dos lagos mais lindos de Ibiza.

Eu podia confiar em Louis. Clarice foi uma das pessoas que mais me ajudaram e se Louis pode ajudá-la, com certeza me ajudaria também. Só não entendi muito bem quando ele disse que eu deveria me arriscar e cair nos braços da vitima que eu estava desenvolvendo sentimentos. Tão estranho! Será que amar é tão bom?

Não sei se amo o Gabriel. Só tenho pena de fazer mal a ele. Medo de machucá-lo, prejudicá-lo. Será que Louis tem razão? Será que eu realmente o amo?







Capítulo 5 - Tequila.





Passei a noite em claro. Revirei-me na cama durante horas. Abracei meu travesseiro desejando que fosse o Gabriel que estivesse ali. Eu tinha o desejo de telo comigo! Tinha desejo de abraça-lo, usa-lo, beija-lo, transforma-lo em alguém só meu.

Gabriel não parecia ser um homem ruim. Louis tinha razão, me apaixonei, mas ainda não é o bastante para deixar minha carreira de lado. Continuarei me vingando de quantos homens eu quiser, até que a minha conta no banco fique grande o bastante e satisfaça todos os meus prazeres.



Levantei da cama com olheiras gigantes. Meus olhos estavam inchados e o sono havia acabado de bater. Fui em direção à cozinha e quando passei pela sala de jantar vi uma mesa linda de café da manhã. Bolos e chocolates exalavam um cheiro delicioso. As frutas e sucos me davam água na boca.



- Bom dia Ms. Margareth! – Louis entrou na sala de jantar.

- Bom Dia! – falei ainda pasma com a mesa – Isso é o que?

- Seu café da manhã!

- Isso é um café da manhã? Parece mais um banquete Louis! Você é incrível!



Sentei-me a mesa morrendo de vontade de devorar tudo o que existia naquela mesa. Comi o melhor bolo da minha vida. Minha boca estava aguada só de olhar para uma torta holandesa.



- Você parece uma criança Ms. Margareth! – Louis me observava.

- Louis sente-se aqui! – eu puxei uma cadeira.

- Diga Ms. Margareth!

- Maggie! Me chame de Maggie! – Louis sentou-se ao meu lado – Eu nunca tive um café da manhã como este. Na verdade, nunca tomei café da manhã. Quando eu era criança, meus pais não tinham dinheiro o bastante para manter três filhos e muito menos para nos dar todos os privilégios que merecíamos! Entendeu porque pareço uma criança? Eu não tive infância!

- É triste ouvir isso Ms. Marga... Quero dizer, Maggie!

- É triste, mas nem eu, nem você temos culpa disso! E mais uma vez Louis, obrigado por estar me ajudando! – abracei-o e dei um beijo em sua bochecha caída.



Louis não parecia fazer muito contato com as pessoas. Ele foi capaz de estranhar meu abraço e estranhou mais ainda o meu beijo. Louis parecia meu avô. Aquela pele fininha, seu rosto idoso com seus cabelos grisalhos. Um senhor esbelto e alto. Louis me dava segurança. Me passava confiança.



- Maggie! Tenho uma vitima para você!

- Mais já Louis? – espantei-me.

- Bernardo Rizzo! Precisamos pagar a piscina da casa!

- Uma piscina? Iremos construir uma piscina?

- Sim Maggie! Já ouviu falar em conforto e lazer?

- Algumas vezes...

- Pois bem, Bernardo é um homem muito rico e jovem, já foi capaz de abusar de muitas garotas nos Estados Unidos e estará passando esta semana por Ibiza, em uma festa da alta sociedade... Essa é a sua chance!

- Ele abusou de muitas garotas? Ótimo! Já sei o que farei com ele. Este vai ser um dos meus melhores casos! – comecei a gargalhar.



Se existir algo que eu não tolero, é abuso! Depois de extremas pesquisas durante a tarde toda, vi que Bernardo Rizzo era filho de um dos homens mais ricos do mundo, ou seja, um garoto que se sentia poderoso e capaz de ter tudo o que queria nas mãos.

“Moony Palace” era o nome do hotel onde iria ser a festa. Desta vez, era necessário um traje social o bastante que mostrasse que o dinheiro estava do meu lado. Peruca preta de cabelos compridos e franja reta, lentes azuis, batom vermelho e um vestido preto de cetim, sapatos e bolsa prada. Louis alugou uma limusine para me levar até a festa. Não seria necessário buscar. Da festa eu já sairia com Bernardo na palma da minha mão.



Desci da limusine me sentindo poderosa. Respirei fundo e joguei meu cabelo para trás. Olhei para os lados e percebi que todos os homens olhavam para o meu corpo e se perguntavam “quem é aquela bela mulher morena de olhos claros?”, enquanto as suas mulheres me invejavam e diziam que tudo não passava de plástica.

Entrei na festa e fui logo pegando uma taça de champanhe. Andei pelo salão a procura do meu alvo. Por enquanto, nada. Direcionei-me até o balcão e fiquei observando o movimento.

Tempo depois senti alguém fungando no meu pescoço. Olhei para o individuo e percebi que não precisaria correr atrás do meu alvo, ele viria até mim. Bernardo estava ao meu lado, preste a me passar uma cantada chula.



- O que uma mulher tão bela faz sozinha neste balcão? – perguntou-me Bernardo.

- Espero um homem como você vir conversar comigo...  – dei um sorriso de canto.

- Muito prazer, Bernardo! – ele pegou minha mão e beijou-a.

- Prazer, Mich!

- Incrível como seus olhos são lindos! – ele me admirava.

- Obrigada! – eu sorri, virei-me para o balcão e pedi uma dose de tequila.

- Tequila em uma festa destas?

- Não existe hora nem lugar para tomar tequila! – exclamei.

- Você está certa! – ele pediu uma dose tequila também.

- Não pense que vai me conquistar copiando e aprovando minhas atitudes Bernardo!

- O que devo fazer para te conquistar? – ele mordeu minha orelha.

- Em primeiro lugar, tirar seus dentes da minha orelha! – ele se afastou rapidamente.

- Você não esta interessada em mim... Certo?

- Estou sim, mas o que seria da sua persistência se eu não fosse difícil? – eu mordi meu lábio.

- Você já provou para mim que é difícil o bastante! Agora venha comigo... – ele pegou na minha mão.

- Espere! Ainda não bebi minha tequila...

- Não beba ainda!

- Porque? Qual o problema?

- Duvido que você seja capaz de tomar essa dose!

- O que ganho em troca se eu tomar direto? – olhei para ele e dei um sorriso maroto.

- Deixo você fazer tudo o que quiser comigo!



Eu virei o copo de tequila. Muito mais fácil do que eu pensava. Mal ele sabia que este “Deixo você fazer tudo o que quiser comigo” iria lhe causar tantos problemas. Pobre Bernardo! Passamos o resto da festa juntos conversando. Ele iria apresentar algumas ideias para os convidados e logo após disso prometeu levar-me a um restaurante. Restaurante aquele que não era bem um restaurante.

Bernardo me levou para a sua mansão em uma Ferrari vermelha, capaz de ofuscar qualquer carro a sua volta. Sai da Ferrari desfilando pelo jardim de sua mansão, Bernardo veio logo atrás de mim e me abraçou por trás, mordendo meu pescoço e passando suas mãos sobre o meu corpo. Ele estava louquinho para que eu fizesse o que eu quisesse com ele. Mal ele sabia que tudo isso não ia acabar bem.

Entramos na mansão e ele foi logo colocando uma música lenta para aumentar o clima. Foi até o bar, pegou uma garrafa de tequila e veio em minha direção.



- É toda sua! – ele sorriu.

- Obrigada, mas não quero a garrafa inteira! – peguei o copo que estava na mão dele e deixei a garrafa com ele.

- Já não aguenta mais tequila? - ele mordeu meus lábios.

- Não e você? Aguenta? - mordi meu lábio.

- Aguento, mas não quero tequila, quero você!



Bernardo jogou a garrafa de tequila no chão e me jogou no sofá, nem ligou para o barulho da mesma se quebrando em pedaços. Tirou seu paletó e sua camisa. Veio por cima de mim dando beijos no meu pescoço e indo até minha boca. Eu sentia nojo quando ele tocava meu corpo. Fui tirando meus sapatos enquanto ele passava as mãos nas minhas coxas subindo meu vestido até que ele pudesse tira-lo. Peguei na nuca dele e mordi seu lábio. O nojo continuava. Subi por cima dele e o deixei deitado no sofá. Levantei meu vestido e o joguei para o lado. O nojo nunca me fizera ganhar tanto dinheiro, sorri quando pensei.

Tirei o cinto dele e coloquei por trás da sua nuca puxando-o para perto de mim e o beijei. Bernardo já estava na palma da minha mão. Continuei puxando ele pela nuca até chegar a uma pilastra, tirei meu sutiã e peguei o cinto para amarrar as mãos dele e prende-las.

Ele parecia gostar da brincadeira. Gritava “Quer brincar não é? Brinca comigo! Brinca!”. Ele pediu. O que mais eu poderia fazer? Coitadinho, ia sofrer tanto! Mandei ele esperar uns instantes enquanto eu me preparava, fui até minha bolsa e tirei uma faca. Fui até ele mostrando meu novo “brinquedinho”.



- O que vai fazer com isso?  - Ele perguntou espantado.

- Não sei... Estou pensando ainda! - Me aproximei dele e passei a ponta da faca pelo seu abdômen.

- Não seja louca! Você não vai fazer o que eu estou pensando que vai, não é?

- O que você acha que eu vou fazer?  - Dei um sorriso sarcástico - Esqueceu o que você me disse hoje mais cedo?

- O que eu disse?  - Ele gritava.

- Vai com calma querido. Não precisa gritar. “Deixo você fazer tudo que quiser comigo!” – falei imitando o tom de voz de Bernardo - Trato é trato!

- Não! Isso não foi um trato!

- E quando você abusou daquelas garotas? Foi um trato ou elas nem puderam escolher? - Eu coloquei a faca encostada no pescoço dele.

- Que garotas? Eu não abusei de ninguém!

- Que mentira!  - Passei a faca dando o primeiro corte sobre a barriga dele.

- Maldita! - Ele gritou e em seus olhos começavam a surgir lágrimas.

- Diga-me Bernardo... Elas escolheram ou você abusou delas? Elas choraram como você?

- Não abusei!

- Resposta errada...  - Passei a faca mais uma vez sobre a sua barriga.

- Chega!

- Você só tem mais uma chance...  - Eu olhei com cara de dó para ele -  Elas escolheram, ou você abusou delas?

- Eu não abusei!

- Que peninha! Errou de novo “Beni”? Você não aprende não é?  - Enfiei a faca em seu braço, ele berrou de dor.

- Certo! Chega! Chega! Eu abusei sim das garotas, mas porque elas em algum momento se ofereceram para mim, elas não são santas!

- Muito menos você...

- Me tira daqui sua vaca!

- Que palavreado mais horrível! Quer que eu te solte? Tudo bem!  - Agachei e peguei nos pés dele, fiz um corte em cada um dos calcanhares dele. Bernardo não ia conseguir andar com seus músculos do pé cortados.

- Me solte sua vadia!

- Certo! - Cortei o cinto que prendia a mão dele no meio, e o soltei, me afastei rapidamente e subi as escadas da mansão.



Entrei no primeiro quarto que vi e comecei a procurar em todas as gavetas. Qualquer tipo de joias, dinheiro, ou documentos serviriam para pagar todo o meu esforço. Encontrei algumas coisas, e fui seguindo a diante procurando em outros quartos. Entrei um quarto que parecia ser o de Bernardo. Vasculhei gavetas cheias de revistas pornôs e fotos de algumas de suas vítimas. Peguei fotos para provas e arquivo pessoal.

Abri o armário e joguei todas as roupas no chão. Ali estava o incrível cofre. Sem pensar duas vezes fui rapidamente descobrindo o código e consegui abri-lo. Bolos de dinheiro e pedras preciosas existiam em enorme quantidade. Peguei uma bolsa que estava naquele armário e joguei tudo dentro dela. Em apenas alguns minutos eu devia ter arrecadado 200 mil dólares entre joias, cartões e dólares.

Desci as escadas com a bolsa e vi Bernardo jogado no chão e jorrando sangue, ligando para alguém. Corri e chutei o celular da mão dele. Nem ouse tentar se vingar! - Gritei. Vesti meu vestido rapidamente e peguei a chave da Ferrari do seu bolso. Adeus!

Sai pela porta da frente correndo em direção a Ferrari. Vi alguém chegando e se aproximando de mim. Tirei minha peruca e joguei para trás tentando acertar o individuo. Entrei na Ferrari e tranquei as portas. O homem batia nas janelas e gritava. Assustada, joguei a bolsa no banco de trás e liguei o carro, dei uma rápida olhada pela janela e percebi que eu conhecia aquele homem de algum lugar. Ele não me era estranho. Bati no vidro tentando espanta-lo e acelerei a Ferrari.

Corri o mais rápido que pude e senti a adrenalina sobre as minhas veias. Aquela sensação era extremamente intensa e gostosa. Dava-me prazer por tudo o que eu tinha feito. Com o tempo fui diminuindo a velocidade e lembrando-me do que havia feito.

A imagem do homem na janela me deixou assustada. Foi como se minha memória fotográfica tivesse tirado uma foto daquele homem. Aquele homem que não era qualquer homem. Era Gabriel! Era ele que estava batendo no vidro da janela! Não podia ser possível. Se ele conseguiu ver meu rosto eu estou completamente perdida.





Capítulo 6 - Gabriel.



Passei a noite em claro novamente. Revirei-me na cama durante horas. Abracei meu travesseiro desejando que Gabriel que estivesse ali. Não conseguia compreender qual era o meu problema nem qual o meu real sentimento por ele. Levantei de manhã com olheiras gigantescas e um humor horrível.

Fui para sala, liguei a televisão e fiquei olhando para o jardim. O sol ultrapassava o vidro e tocava minha pele. Depois de Gabriel, o sol era a única coisa que fazia eu me sentir despreocupada. Quando o calor toma conta da minha pele e me deixa relaxada. Melhor ainda é quando Gabriel toca meus lábios nos seus. Chega! Cansei de pensar nele.

Louis percebeu que eu havia acordado cedo demais e preparou a mesa de café. Mais uma vez eu via comida que não acabava mais.



- Acho que você não precisa exagerar tanto da próxima vez! – Disse para Louis observando a mesa.

- Você tem direito a tudo isso Maggie!

- Mas é desperdício Louis! Acredito que outras pessoas precisam mais disso do que eu.

- O que aconteceu com a Sra. Maggie?

- Ontem eu vi o Gabriel!

- Como? – Louis perguntou espantado – Você não havia marcado nada com ele que eu saiba!

- Eu fui dar o golpe no Bernardo ontem à noite – contei todo o ocorrido – e Gabriel estava ali. Na minha frente! Foi assustador. Só percebi depois de um tempo e estou torcendo para que ele não tenha me visto!

- Você está correndo muito risco estando apaixonada por este homem Sra. Maggie!

- Eu sei Louis, mas não consigo me concentrar direito!

- Você deve escolher entre continuar dando golpes ou se render ao homem que ama... A escolha é somente sua Maggie!

- Meu Deus! O que devo fazer?

O meu telefone celular tocou. Era Gabriel.

- E agora Louis? O que eu faço?

- Atenda! – respondeu ele.

- Ai! – respirei fundo – Alô?

- Maggie?

- Sim! – Eespondi.

- Aqui é o Gabriel!

- Olá Gabriel! Como está?

- Estou bem, apesar de algumas coisas e você Maggie?

- Estou bem! – Eu não conseguia segurar o nervosismo. Minha garganta estava seca.

- Maggie, eu preciso te encontrar urgentemente!

- É... Para que?

- Preciso conversar um assunto muito sério com você! – Ele parecia nervoso – Quer almoçar comigo no “Stacy”?

- Tudo bem!

- Te encontro lá às 14h. Até logo!

- Até! – respondi e desliguei.



Ele me viu! Só pode! Olha o jeito que ele me tratou no telefone. Nem foi carinhoso comigo... Nem me ligou outras vezes. Ele apenas me ligou hoje porque me viu ontem, tenho certeza! Estou entrando em pânico!



- Que cara é essa Sra. Maggie? – perguntou Louis.

- Gabriel disse que precisava falar comigo urgentemente!

- E o que a Sra. Falou?

- Eu disse que tudo bem e marquei um almoço com ele...

- Não Sra. Maggie! Você não devia ter feito isso!



Depois de ficar ouvindo Louis me dizendo que eu não deveria ter marcado tal encontro com Gabriel, eu fui me arrumar. Eu não sabia o que vestir. Olhei para o meu closet e não sabia o que escolher. Tantas roupas. Tantas opções! Peguei um vestido azul marinho e um sapato de salto branco. Coloquei minha peruca loira e minhas lentes, afinal, foi assim que Gabriel me conheceu.

Peguei meu carro e fui em direção ao restaurante “Stacy”. Não consegui parar de pensar no que Gabriel iria me falar. Quais seriam as perguntas que ele iria me fazer. Eu estava perdida. Ele nunca iria me perdoar por machucar aquele amigo idiota dele. Mal ele sabia que Bernardo era um pedófilo que abusava das inocentes e mesmo que eu tentasse dizer a verdade, Gabriel não iria acreditar em mim.

Cheguei ao restaurante. Entrei e sentei em uma mesa a espera de Gabriel. Minhas pernas tremiam, meu coração palpitava e minhas mãos suavam. Depois de algum tempo ele apareceu. Deu-me um beijo no rosto e sentou-se comigo.



- Como está Margareth? – Ele abriu um sorriso.

- Estou bem! E você Gabriel? – Correspondi o sorriso.

- Estou bem também! O que vamos pedir? – Ele pegava o cardápio e escolhia alguma coisa.

- Não faço a menor ideia. Pode escolher o que quiser, eu não me importo...

- Sério Margareth?

- Maggie, por favor!

- Realmente não sei! – Ri envergonhada tentando disfarçar meu nervosismo.

- Sim! Bom, então vou pedir algo muito bom. É meu prato predileto e acho que você irá gostar!

- Gabriel...

- Sim!

- O que você queria tanto falar comigo? – Perguntei ansiosa pela resposta.

- Na verdade... – Ele deu um sorriso de canto. – Eu só queria te ver! Isso só foi uma desculpa...

- Sério? – Eu respirei aliviada.

- Sim! Estou gostando muito de você Maggie! – Ele colocou sua mão sobre a minha e abriu um sorriso.

- Também estou gostando muito de você também! – Eu correspondi o sorriso mais uma vez.



Nunca me senti tão aliviada. Que lindo esse Gabriel... Ele disse que está gostando muito de mim. Quase me derreti inteirinha ali, na frente dele. Mas precisava me controlar para não beija-lo ou dizer que o que eu realmente sentia por ele podia ser amor.

Ao mesmo tempo em que eu queria beija-lo, eu sabia que em algum momento eu deveria contar a ele toda a verdade. Meu medo era acabar com toda aquela sensação gostosa que eu sentia ao estar perto dele. Gabriel parecia ser diferente dos outros homens. Ele era o único homem que eu consegui sentir desejo. Desejo de beija-lo. Desejo de leva-lo para cama. Desejo de me casar. Desejo de viver eternamente com ele.

Conversamos sobre milhares de assuntos durante o almoço. Ele me contou diversas histórias sobre sua família. Ele era realmente o homem perfeito. Mas talvez não o homem perfeito para mim.

As horas foram passando e nós dois continuamos conversando. Já eram quase seis horas da tarde e nós dois ainda estávamos lá. Se não fosse o trabalho do garçom de nos dizem que teríamos que sair porque eles iriam servir o jantar, nós dois nunca teríamos ido embora.

Gabriel me convidou para ir até a sua casa. Eu não pude perder a oportunidade e aceitei. Era uma mansão linda. Bege e com alguns toques antigos. Ao entrar fiquei espantada com a sua imensidão e a decoração. Nunca tinha visto um lugar tão lindo. Apesar de grande, a mansão parecia aconchegante. Ele me convidou para sentar na sala de visitas para conversarmos um pouco mais.

A noite foi indo e o tempo esfriando. Gabriel era um cavalheiro. Ele acendeu à lareira, pois havia percebido que eu estava morrendo de frio. Depois disso, sentou-se ao meu lado e com um disfarçado espreguiçar ele envolveu seus braços em meu ombro. Virei meu rosto e o olhei nos olhos dele. Não pude resistir. Fui devagar encostando meus lábios no dele e antes que eu pudesse perceber nós já estávamos nos beijando!

Gabriel me abraçou enquanto deslizava seus lábios nos meus. Foi lindo. Eu nunca havia beijado alguém por vontade própria. Nossa! Que sensação perfeita, gostosa, prazerosa! Passei a mão sobre as costas dele e fui deslizando com as minhas unhas sentindo cada músculo de seu corpo. Gabriel me dava tesão. Apertei-o com vontade. E sem mais delongas, deitei-me por cima dele no sofá.

Ele pareceu espantado, mas ao mesmo tempo satisfeito com o que eu havia feito. Coloquei a mão na barriga de Gabriel por de baixo de sua blusa e fui acariciando lentamente com as minhas unhas. Ele segurava minha nuca com força e descia a outra mão pelo meu corpo me acariciando completamente.

Comecei a suar. A lareira e a pele de Gabriel estavam extremamente calorosas. Gabriel lentamente colocou a mão no final do meu vestido e perguntou se podia tira-lo. Eu assenti com a cabeça.

Tempo depois, nós dois estávamos nus e pela primeira vez eu fiz amor com alguém que eu realmente amava. Foi à sensação mais incrível que eu já pude ter na minha vida. Meu primeiro orgasmo. E essa tal sensação me fez até pensar em desistir de tudo o que eu fazia. Imaginem só. Nunca parei para pensar se deveria desistir do meu ‘trabalho’. Nunca imaginei que toda aquela vingança que eu prometia aos outros só me afetava e me destruía cada vez mais. Gabriel foi o único que me fez entender indiretamente.

Depois daquela linda noite de amor, Gabriel pediu para que eu dormisse na casa dele. Ficamos na cama conversando até altas horas. Uma hora ou outra nos amávamos. Aquela noite seria a mais inesquecível da minha vida.

De manhã acordei e estava sozinha na cama. Fiquei com receio de me levantar e ser indelicada, por isso, esperei que Gabriel voltasse para o quarto. Ele voltou, mas não estava sozinho. Gabriel trouxe um café da manhã na cama para mim e me entregou uma rosa. Me derreti mais uma vez e agradeci a ele por ser tão gentil comigo.

Gabriel não parava de me fazer pensar na noite em que eu dei o golpe em Bernardo. Ao mesmo tempo em que eu queria contar tudo para ele e dizer que eu desistiria de fazer tudo o que fiz por ele, eu tinha o receio de que ele pudesse me odiar eternamente. Não dava mais para segurar. Gabriel merecia saber a verdade.



- Gabriel...

- Diga meu amor! – Que lindo, ele me chamou de meu amor!

- Eu preciso te confessar uma coisa! – Eu fechei os olhos tentando tomar coragem e respirei fundo.

- Diga!

- Sabe o que aconteceu sábado na casa do Bernardo?

- Sim! Como você sabe o que aconteceu lá? – Ele perguntou espantado.

- Eu estava lá!

- Você estava? Aquela mulher te machucou? O que fazia lá?

- Calma Gabriel! Eu estava lá e...

- Diga-me Maggie! –  Ele perguntava espantado.

- Eu era aquela mulher Gabriel... Eu dou golpes em homens que maltratam e abusam mulheres. Eu sou uma golpista!

- Como? – Ele gritou – Não brinque com uma coisa dessas!

- É a verdade! Não posso mais mentir para você... Não agora! Me apaixonei por você e resolvi largar tudo isso!

- Não! É impossível! Era você? Eu sabia que conhecia aquela mulher de algum lugar! Não acredito que você foi capaz de fazer isso!

- Perdoe-me! Mas o Bernardo errou milhões de vezes... Eu precisava fazer justiça!

- Fazer justiça? Você é alguma policial? O Batman? Mulher maravilha? Era meu irmão Margareth! Meu irmão! – Gabriel gritava.

- O que? Bernardo era seu irmão? – Gritei assustada.

- Meu irmão Margareth! Você matou o meu irmão!

- Ele morreu?

- Deixe de ser ingênua! Que nojo de você! – Gabriel me pegou pelo braço – Não sei por que, mas não quero te denunciar! – Ele gritava – Saia agora da minha casa e não quero olhar na sua cara nunca mais! Nunca mais! – Ele me puxou pelo braço e me jogou seminua para fora da casa dele.



Tempo depois Gabriel jogou minhas roupas e minha bolsa. Eu estava perdida. Às vezes o que é certo, não é totalmente certo para si mesmo. Eu errei e agora pagarei por este erro pelo resto da minha vida.



Capítulo 7 - A Mudança.



Meu coração doía enquanto eu me agarrava em meu travesseiro e chorava desesperadamente. Senti-me perdida em um mundo desconhecido, com medo, frio, saudade. Eu queria que Gabriel estivesse ali, me confortando. Mal ele sabia que quanto mais ele sentisse raiva de mim seria quando mais iria precisar dele.

Meu peito parecia exposto. Algo como se eu tivesse um buraco ali e todos pudessem ver o estrago em que meu coração havia ficado. Eu paguei na mesma moeda. Depois de destruir tantas vidas de homens que eu mal conhecia e julgava por boatos, agora eu havia destruído a minha. Na verdade, nunca construí uma vida. Eu sempre quis, mas nunca consegui.

Cada família que eu destruí, parte de mim foi junto. Querendo ou não, os homens que eu matei tinham filhos... Filhos que não tinham culpa e que de certo modo precisavam de um pai, assim como eu precisei. E indiretamente eu transformava a vida dessas crianças na mesma que eu tive.

Depois de horas refletindo deitada na cama, chorando e agarrando meu travesseiro pensei que talvez eu pudesse consertar algo. Talvez se eu me declarasse para Gabriel e tentasse me explicar... O problema é que ele não iria me ouvir. Eu matei o irmão dele. Foi o que ele disse. Eu sou uma assassina. Matei o irmão de Gabriel e também o sentimento que eu havia despertado no peito dele... Ele me amava.

Louis não me viu chegar e então, não preparou o café. Desci as escadas e o vi sentado olhando para a televisão. Com meus olhos inchados, olhei para ele pedindo ajuda. Louis se espantou com meu estado e veio em minha direção.



- O que aconteceu Sra. Maggie? O que ele fez?  - Ele perguntava espantado.



Demorei algum tempo para perceber que ele havia me perguntado algo. Louis segurou meus braços e perguntou novamente.



- O que aconteceu Sra. Maggie? O que ele fez? Diga-me!

- O que eu fiz você quer dizer não é Louis?

- Como assim Sra. Maggie? Ele descobriu?

- Eu contei para ele! Contei tudo Louis!  - As lágrimas escorriam pelo meu rosto.

- Não! Você não devia ter contado! - Louis gritava.

- Eu não podia mentir para ele Louis... Gabriel não merecia isso!

- É por isso que digo que amor é um veneno Sra. Maggie! Um ótimo veneno para acabar com qualquer noção mental...

- Não Louis!

- Sim! Você estava apaixonada por ele...

- Estou - Interrompi.

- Está. Viu? Apaixonada por ele, besta, chorando! Sra. Maggie, temos que continuar vivendo, seus golpes são os melhores que eu já ouvi falar.

- Chega Louis! Eu desisti!

- Desistiu? Você está louca?

- Completamente louca por ele. Eu destruí tantas famílias com meus golpes. Matei tantos homens. Cuidei de problemas que não eram meus...

- Cale a boca! - Ele me interrompeu - Este é o seu trabalho Sr. Maggie! Eles lhe pagam para isto.

- Esta carreira não existe Louis! - Retruquei gritando - Eu criei isso, nós criamos... Clarice criou... Chega disso! Chega! Eu já consegui o que eu queria...

- Como Sra. Maggie? Conseguiu o que?

- Consegui amar! Eu nunca amei, nunca senti saudade, nem falta.

- Mas esse nunca foi o seu objetivo. Foi?

- Não, mas agora é. Não conseguirei mais trabalhar sentindo essas coisas. Cada homem que eu for dar um golpe vou lembrar-me de Gabriel, como ele me olhava nos olhos e como ele teve ódio de mim depois.

- Sra. Maggie! Pense duas vezes... Para onde irei?

- Louis vá viver sua vida! Aproveite-a!

- Não acredito que fará isso comigo...

- E eu não acredito que você não me mandou parar quando viu que a coisa estava ficando feia...

- Eu mandei você parar Sra. Maggie, mas você não me ouviu!

- Desculpe-me Louis! Não posso continuar com você... Quero que você seja muito feliz e eu tentarei ser também...

- Esta é sua ultima palavra Sra. Maggie?

- Sim Louis! Acertarei seu pagamento assim que puder, você pode ir... -Lágrimas escorriam por meu rosto e eu não conseguia mais falar nada para Louis.

Louis me olhava com espanto.





Com eu queria ler seus pensamentos. Saber o que se passa na sua mente fria. O porquê dos seus olhos negros mudarem de cor ao me olhar.

Com ele deitado na cama, vi seu corpo coberto com o lençol, seu rosto leve e doce me passava alívio. Passei minha mão por sua nuca tentando satisfazer o meu desejo de toca-lo. Sem sucesso, continuei com a mão deslizando pelo seu corpo, agora pelas suas costas. Minhas unhas o arranhavam com delicadeza.

Ele não acordava. Deve ter se divertido bastante noite passada. Abri um sorriso e coloquei meus lábios em sua têmpora. “Bom dia anjo!” Sussurrei. Falei sozinha. Ele não me respondeu. Estaria ele realmente cansado?

Puxei-o de modo que eu pudesse ver seu rosto. Seus olhos ensanguentados me fizeram gritar.

- Gabriel!



Acordei.

Um sonho. Um pesadelo. Já era a quinta noite consecutiva que eu sonhava com ele. Lágrimas corriam pelo meu rosto e o desespero gritava em meu peito.

Olhei pela janela. Não consegui encontrar o sol. O prédio da frente tampava minha visão e por um instante me perguntei como eu conseguia dormir com todo aquele barulho. Remédios, pensei.

Depois que discuti com Louis há uma semana, eu não soube mais notícias dele. Minha mansão em Ibiza continuava lá, mas, querendo esquecer o que fiz durante os últimos quinze anos de minha vida, resolvi voltar a New York e recomeçar na periferia da cidade.

Não sentia mais prazer em ter dinheiro, mas sentia falta de me vingar. Vingança era a única coisa - depois dos elogios de Gabriel - que me alimentava interiormente e agora era a única coisa que poderia manter minha vontade de continuar viva.



Depois daquele terrível pesadelo, nada conseguiria me manter dormindo, nem remédios. Levantei-me a procura de algo para comer. Fui até a pequena e suja cozinha. Abri o armário e encontrei um saco de pão-de-forma. Ai que saudade do café da manhã de Louis.

Saudade. Mais um sentimento tosco que eu havia desenvolvido.

Tentei ficar mais animada esperando encontrar algo na geladeira. Abri com um sorriso e fechei a porta com raiva. Eu iria comer pão puro naquela madrugada. Mastiguei o pão com muita má vontade, mas meu estomago pedia algo para satisfazê-lo.

Roupas. Acho que isso era a única coisa que eu ainda havia guardado. Coloquei uma blusa de frio e um sobretudo vermelho. Eu não havia escolhido a melhor época para ir a New York. O frio estava tenebroso.

Caminhei pelas ruas da cidade tentando encontrar algo que ocupasse meu tempo. Um emprego talvez. Olhei para alguns bordéis e pensei que eles poderiam trazer o que eu tanto queria. Mas vingança não iria ser possível fabricar em lugares tão públicos e tão frequentados como esses bordéis.

Duas horas na rua e eu não havia encontrado nada, porém, finalmente as lojas já estavam abertas. Entrei no primeiro Starbucks que vi pela frente. Café. Pensei entusiasmada.

Depois de pegar meu café, sentei-me em uma mesa. Isolada de tudo e de todos que tomavam café como eu, peguei uma revista e comecei a ler. Dicas de maquiagem, como emagrecer e todas aquelas dicas fúteis que eu nunca consegui seguir e sempre fui capaz de seguir as minhas. Aquela revista não iria me distrair o bastante.

Comecei a olhar as pessoas entre a revista, disfarçando, ou pelo menos tentando. Mulheres cheias de rugas, algumas velhas, outras novas demais, mas sem dinheiro nenhum para se cuidar. Alguns homens barrigudos e nojentos. Isso me lembrava meu pai.

Um homem me chamou atenção. Cabelo escuro, de olhos castanhos claros, quase um mel eu diria. Pele bem branca. Corpo forte e com aparência bem quente. Apenas o olhei mostrando interesse. Eu não queria que ele me visse.

Ele me olhou. Droga! Torci para que ele não tivesse percebido o meu tal falso interesse. Funcionou. Ele seguiu para a fila e foi pedir seu café. Respirei aliviada por uns dois minutos.

Agora ele vinha em minha direção. “Sente-se na primeira mesa que ver cara” pensei. Ele continuou vindo em minha direção. Sentou-se ao meu lado e com um sorriso de canto falou:

- Permita-me?



Você já sentou não foi? - Pensei.

- Claro. Fique á vontade - Ou vá embora logo maldito, pensei.

Ele ficou me encarando por alguns instantes. Continuei fingindo que estava lendo aquela revista horrível. Seja tolerante, pensei.

- O que há trás aqui tão cedo?  - Perguntou-me ele.

- Falta de sono! - Respondi tentando ser gentil.



Por mais um tempo ele ficou sem falar nada. Pareceu continuar me observando, mas eu não trocava olhares com ele.



- Não estou te incomodando estou? - Ele sorriu.

- Não! Fique á vontade! - Repeti.

- Meu nome é Scott!  - Ele estendeu a mão.

- Muito prazer Scott! Sou Margareth, mas pode me chamar de Maggie!  - Apertei a mão dele.



Senti um calafrio instantâneo. Aquela mão era extremamente gelada, parecia uma pedra. Olhei nos olhos dele espantada. Eu jurava que há um minuto os olhos dele eram castanho claro quase cor de mel e agora... Estavam totalmente negros.



- Eu jurava que seus olhos eram castanhos!  - Falei observando-o.

- Ah! Todos dizem isso!  - Ele sorriu para mim - No claro principalmente. Eles parecem castanhos de longe, mas na verdade são pretos.

- Interessante...



Eu não parava de olha-lo e em uma fração de segundo percebi e dirigi meus olhos para o meu café, agora, quase frio.



- Droga!  - Resmunguei pegando meu café.

- Algum problema?  - Ele olhou para meu copo de café - Creio que já esta frio.

- Sim!  - Respondi.

- Vou pegar mais um para você.

- Não!  - Falei eufórica e puxei seu braço frio - Deixe para lá!

- Imagine Maggie! Pegarei mais um para você.

- Já que insiste...



Resolvi deixa-lo ir para que eu pudesse pensar naquela pele fria com aparência quente. Era realmente estranho entender aquele homem tão belo. Indiretamente ele me despertou interesse... Mas eu ainda amava Gabriel. Claro que fiquei olhando para aquele estranho homem. Imagine se ele coloca algo no meu café e eu caio dura em 3 segundos?

Fiquei observando Scott enquanto ele pegava outro café para mim. Suas expressões eram estranhas. Ele parecia fungar o nariz toda hora e observava cada um de um modo diferente. Ás vezes olhava para mim e dava um sorriso, mas não o percebi colocando nada. Ufa!

Tempo depois ele voltou:



- Aqui está!  - Ele me entregou o café.

- Obrigada! Fico te devendo essa!  - Agradeci.

- Me devendo? - Ele pensou alguns instantes - Na verdade, poderia me pagar de uma forma muito simples...

- De uma forma muito simples?  - Repeti.

- Sim! Adoraria que você saísse comigo Maggie!  - Ele pegou em minha mão.



Seus dedos eram frios e pesavam como pedra. Mais uma vez senti o mesmo calafrio que da primeira vez. Os olhos de Scott me fitavam com desejo. Será que eu poderia realmente lidar com ele? Dinheiro não parecia problema. Ele tinha boa aparência, usava roupas de marca. O que me fazia desconfiar de Scott era seu olhar diferente.

Parte dele me dava medo, outra parte o desejava em meus braços. Eu tentaria dar um golpe nele. Desta vez, não por dinheiro, mas sim por vingança. Precisava me alimentar disso.



- Sair com você?  - Fingi-me de ingênua - O que leva um homem tão bonito chamar uma mulher tão fosca perto dele?

- Pare com isso Maggie! Você é deslumbrante! - Ele apertou meus dedos com delicadeza - Saia comigo, por favor!

- Certo! Você sabe me convencer... - Eu abri um sorriso.

- Irei te convencer sobre muito mais coisas Maggie! – Ele correspondeu o sorriso.



Scott abriu um sorriso e olhou-me nos olhos. Agora aquele olhar me demonstrava perigo. Seus olhos não eram mais castanhos nem pretos, desta vez, era de um puro vermelho sangue.



Capítulo 8 - O reencontro.



Scott me dava arrepios. Seus olhos mudando de cor, sua pele fria, por um momento pensei que ele fosse um vampiro, juro. Mas sou muito ingênua, seus olhos tem pigmentação diferente, isto é algum tipo de doença que eu mesma desconheço, mas prefiro acreditar que ela existe. E para explicar sua pele fria... Eu diria, tem muita gente com pele fria por ai. Fora que eu mal consegui dormir, então logo imaginei que eu realmente estivesse na verdade com sono e por isso, fantasiei tanto com aquele homem.

Fiquei pensando em como aplicaria um golpe nele, afinal, eu precisava voltar à ativa. Ficar em casa me lamentando seria tiro e queda para uma depressão profunda de noites e noites com potes de sorvete, mas que seja eu não precisava pensar, eu precisava levar Scott para fora daquele lugar e descontar toda a minha raiva nele. Eu não tinha mais Gabriel... E botei na minha cabeça que não iria ter mais. O que podia me confortar então? Apenas meus golpes.



- Scott, posso ser sincera com você? – Perguntei.

- Mas é claro Maggie! Diga e eu responderei.

- Bom – pensei por um instante e fui direto ao ponto – Você é um homem muito atraente, simpático e eu juro, por tudo, que não consigo mais me segurar...

- O que quer dizer com isso? – Ele se espantou.

- Quero transar com você Scott! Por favor, leve-me para sua casa e faça o que quiser comigo!

- Mas...

- Shiiu! – eu coloquei o dedo sobre seus lábios – Se você quiser transar comigo, apenas pegue na minha mão e me leve para sua casa. Apenas isso!

- Certo! – ele parecia confuso – Vamos! – Scott pegou minha mão.



Fomos em direção ao carro dele. Estava apreensiva. Teria que fingir um orgasmo desta vez? Creio que sim. Gabriel foi o único... Bom, esqueça isso. Preciso me concentrar em Scott. Durante a ida até sua casa, Scott não falou nada, mas acariciava minhas pernas frequentemente. Tempo depois ele já estava deitado na cama a minha espera. Fui ao banheiro prometendo me arrumar, mas na verdade vasculhei armário por armário. Duas correntes de ouro foram às únicas coisas que eu consegui achar. Maldito! Pensei que fosse rico. Mas ainda existia outra possibilidade. Poderia existir um cofre na casa dele. Pensei rapidamente e tirei toda a minha roupa e apareci na porta do banheiro completamente nua.

Recebi um sinal de que estava sensual o bastante naquela noite. Ele já demonstrava aquele volume na calça. Coitado! Mal sabia ele que estaria com sua parte mais preciosa do corpo sendo esmagada em alguns instantes.



- Ai Scott! – fui em direção a ele e subi na cama devagar ficando de quatro por cima dele.

- Maggie, estou impressionado! – ele arregalava os olhos.

- Mesmo? Aguarde querido, isto é só o começo Scott! – Eu passei minha língua sobre os seus lábios e os mordi levemente.



Scott puxou-me com força de forma que eu encostasse meu corpo inteiro no seu. Desesperada por tempo arranquei a camisa dele rapidamente enquanto pressionava minha mão sobre sua perna e arranhava levemente. Scott era violento, ele não media sua força e diversas vezes apertou-me com muita força. No inicio não concordei com isso, mas depois pensei em direitos iguais. Minha vontade era de acabar com toda aquela minha vontade e transar com ele imaginando que fosse Gabriel ali.

Passei as mãos pelo cós de sua calça, desabotoei-a devagar e depois fui deslizando minhas mãos por suas pernas tirando a calça enquanto olhava para Scott e dava sorrisos maliciosos.

Meu olhar devia ser intenso. Se ele percebesse uma desviada de olhar se quer eu estava perdida. Scott parecia ser um homem observador e exatamente por isso ele é um dos tipos mais difíceis de conquistar e lidar. Mesmo ele me levando tão rapidamente para a casa dele.

Tirei a calça de Scott e sentei em cima da sua parte mais prazerosa. Ele abriu um sorriso e eu logo percebi que ele estava gostando.



- Maggie, você é impossível! – Ele mordia os lábios.

- Como você prefere Scott? – Perguntei.

- Prefiro o que?

- Ora seu bobinho... O sexo oral. Como prefere?

- Do jeito que você preferir. – Ele me olhou nos olhos.

- Eu comando então.

- Sim.

- Isto tão foi uma pergunta! – Exclamei e deite-me em cima do seu peito.



Devagar fui tirando sua roupa delicadamente. Mordia meus lábios frequentemente e passava a mão entre os meus seios. Scott delirava e suava. Fiquei de pé na cama e tirei minha calcinha, joguei em cima do rosto de Scott. Não sei por que, mas homens adoram isso. Scott cheirou minha calcinha e olhava pra mim com desejo. Coloquei o pé levemente sobre a calça dele e apertei devagar. Scott gemeu. Não sei se foi de prazer ou de dor.



- Vá com calma Maggie! – Ele disse.

- Estou indo com muita calma.



Com um pulo sentei-me na cama. Passei a mão pela barriga de Scott e arranhei com vontade. Encostei meus lábios no dele e o beijei como se tivesse vontade. Abri a calça de Scott abaixei o zíper devagar e tirei sua cueca. Olhei para o pau dele com desejo (como se eu desejasse aquilo). Em uma fração de segundos peguei a seringa que eu havia colocado na cabeceira da cama sem ele perceber e enfiei bem onde todo o homem sentiria uma dor enorme só de imaginar uma agulha entrando profundamente.

Tempo depois o tudo já tinha acabado. Scott estava morto e dormindo do outro lado da cama. Sim, muito interessante este tipo de homem, não?

Levantei-me da cama bem devagar. Por onde eu iria começar a procurar? Armários pareciam uma boa ideia. Corri para o closet. Vasculhei gavetas e ternos. Nada. Que inferno! Jurei, que se ele fosse pobre o bastante para jogar esta noite no lixo eu iria vender seus órgãos no mercado negro.

Corri para sala, vasculhei as almofadas do sofá, mesinhas, vasos. Nada. Fui em direção à cozinha e enquanto andava percebi um fundo falso no chão. Há, é agora! Puxei o tapete que escondia o azulejo. Puxei o azulejo devagar e vi uma escada.

“Sim!” pensei. “Devo encontrar milhões de notas de dinheiro e mais algumas joias”. Desci as escadas e dei de cara com tudo escuro. Fui apalpando as paredes, tentando encontrar algo e nada. Resolvi então bater palmas e enfim as luzes se acenderam.

Vi um cofre. Parecia bastante difícil de abrir, mas antes que eu pudesse tentar abri-lo Scott apareceu.



- Esta sem sono Maggie? – perguntou.

- É... Quer dizer... Estava andando pela casa e percebi o chão falso. Desculpe a curiosidade. Acabei vindo parar aqui.



“Droga!” pensei. Ele me descobriu. Pensei em sair correndo pela porta pela primeira vez, mas não poderia desistir tão facilmente. Meus olhos estavam quase lacrimejando e minhas pernas tremendo. Como eu sairia desta? Eu apliquei uma coisa que seria quase impossível ele estar vivo.



- Você é uma golpista não é? – Ele perguntou confuso.

- Na verdade...

- Diga Maggie!

- Sou. Mas não estou em um golpe hoje. Só vim aqui por curiosidade!

- Hoje você não esta em um golpe? Amanhã estará? Ou talvez quando sairmos da próxima vez? – Ele falava com a voz ficando cada vez mais alta.

- Não! Scott, por favor, acredite em mim!

- Não vou acreditar. Não quero acreditar! Você é nojenta, puta... Resumidamente prostituta!

- Pare! – Eu gritei.

- Olhe... – Ele pensou por um momento – Você vai sair do jeito que está da minha casa agora... E não vai pegar nada do que é seu aqui... Caso contrário eu chamarei a polícia. Aí sim você vai se explicar.

- Não posso deixar minhas coisas aqui! – Quando terminei de falar Scott já estava com a mão na minha garganta me enforcando contra a parede com uma força que eu jamais imaginei existir.

- Prisão ou liberdade. A escolha é sua. Aprenda a fazer parte dos jogos, você não controla todos os homens Margareth.

- Não vou ser presa Scott! – Corri para cima de Scott e dei um chute entre suas pernas.



É claro. Scott não sentiu porra nenhuma. Minha perna sentiu. Ele me pegou pelos braços com uma enorme força. Meus ombros viraram pó. Eu estava perdida. Doída. Machucada.

Scott me amarrou e deixou-me presa. Ouvi ele ligando para policia e falando que finalmente tinha encontrado a melhor golpista de Nova York. Que ótimo! “Pelo menos eu era a melhor golpista” pensei.

Fiquei observando o local, procurando qualquer coisa que me ajudasse a escapar. O duto de ventilação. Incrível. Consegui desamarrar a corda que prendia meus pulsos com rapidez, e finalmente quis agradecer a Louis por me ensinar alguns desses truques. Corri para o duto e chutei com a maior vontade. Meus pés entraram em colapso. A dor era intensa, mas depois que eu saísse dali eu poderia pagar uma ótima manicure.

Entrei no duto de ar. Que nojo! Aquilo não era lavado a séculos, ou talvez nunca tivesse sido lavado. Mas que seja eu precisava sair dali. Arrastei-me o mais rápido possível. Eu estava ofegante quando comecei a escutar o barulho na rua. Fui um pouco mais rápido e finalmente vi luzes. Mais uma vez machuquei meus pés chutando a saída. Depois de dez tentativas eu estava livre.

Sai correndo o mais rápido que pude. Não olhei para trás. Eu já não respirava direito. Na verdade, só queria sair de lá, queria intensamente sair de lá.

Entrei em um beco sem saída. “Merda!” Gritei quando vi um carro entrando no beco. Respirei fundo e imaginei o pior.

Eu seria presa, talvez pudesse ir para o corredor da morte. Viveria o resto dos meus dias em uma prisão cheia das mulheres mais loucas e psicopatas do planeta. Era o fim. O fim de Margareth Milles.

O carro parou bem na minha frente. Apenas alguns centímetros de distância. O vidro do motorista foi abaixado. Era um homem. Olhos azuis, loiro, lábios carnudos. Por um momento parei de respirar. Era Gabriel quem estava dentro do carro?

“Pronto! Ele iria me atropelar para vingar a morte do seu irmão Bernardo.” Pensei.



- Entre logo Margareth! A polícia está procurando por você! – Ele gritou.

- Mas... Mas...

- Se quiser continuar viva, sugiro que entre agora no meu carro Margareth!



Eu engoli a seco. Abri a porta e entrei no carro. Meu coração disparava, meu corpo fervia. Era essa a sensação de reencontrar Gabriel.



Capitulo 9 – Orgulho?





Gabriel não falava, não olhava para os lados e nem se quer respirava (era o que parecia). Ele apenas olhava fixamente para frente.

Confiei nele o bastante para entrar naquele carro e esperar que ele não fosse fazer nada comigo. É claro que por muitos momentos fiquei pensando nas milhares de coisas que ele poderia fazer comigo. Jogar o carro penhasco abaixo era uma das possibilidades.


Eu queria perguntar para ele o que eu fazia ali. O porquê ele veio me buscar e como ele sabia que eu estava lá. Mas nada saía. Minha garganta estava seca. Minhas cordas vocais pareciam terem sido arrancadas. Eu não tinha mais saliva e nem se quer ar nos meus pulmões, o que predominava minha sensação de estar viva era a intensidade que meu coração batia apenas por estar ao lado de Gabriel. Que por sinal, transmitia-me calor de forma inexplicável.

Resolvi arriscar e ver se Gabriel trocaria palavras comigo.

- O que vai fazer comigo Gabriel?  - Perguntei assustada.

Ele não respondeu. Mas Gabriel começou a gargalhar. Ria intensamente, mal podia respirar de tanto que ria. Fiquei cada vez mais assustada e curiosa para saber qual era a graça.

- Qual é a graça Gabriel?  - Esperei pela resposta, mas ele não me respondeu, então perguntei novamente -  Vamos! Diga-me: qual é a graça?

- Certo! - Ele parava de rir aos poucos.

- Fale logo!

- Calma!  - Ele ria - Preciso respirar primeiro.

Esperei ansiosa. Gabriel demorou a responder. Ficou respirando fundo e esperando o ataque de riso passar. Vê-lo rindo me deixou nervosa. O que estava acontecendo? Por um acaso eu parecia uma palhaça?

- Diga logo Gabriel!  - Eu exclamei.

- Certo... - Ele respirou fundo - Não pude me conter e tive que rir quando vi sua cara de assustada Maggie.

- O que?

- É! Você ficou morrendo de medo quando entrou no carro, mas depois quando me perguntou o que eu iria fazer com você... Sua cara de apavorada... Não pude me conter!

- Eu não estava e nem estou assustada! Só fiquei curiosa em saber por que estava me esperando...

- Ah!

- Não vai me matar? Nem brigar comigo?

- Porque iria fazer isso, quando somos da mesma espécie?

- Espécie?  - Perguntei.

- Exatamente. Sou como você... Margareth Milles, a famosa golpista de Nova Iorque.

- Não! - gritei - Você só pode estar brincando! Você? Gabriel... Um golpista? - comecei a gargalhar - Não brinque com isso!

- Te enganei direitinho quando disse que era dono daquele restaurante, e também quando falei que era espanhol e tinha nascido em Ibiza. Ah, e quando falei que Bernardo era meu irmão... Tudo mentira!

- Meu Deus!

- Viu, parte de você caiu no seu próprio veneno.

- Mas...  - pensei por um instante e falei - Não pode ser... Não acredito em pessoas... Você falou com tanta sinceridade...

- Por isso sou um golpista. Mas é claro que você Maggie, não resistiu ao meu charme e não conseguiu me matar nem me dar um golpe porque estava louca por mim.

- O que? - eu ri - Só pode estar brincando. Eu, com uma queda por você? Até parece!

- Então porque não veio atrás de mim? - ele perguntou.

- Porque você até então era irmão de Bernardo. E eu não conseguiria dar um golpe em você depois disso.

- Desenvolveu sentimentos imagino.

- Não! Nunca! - eu começava a ficar confusa - Porque inventou tudo isso então?

- Margareth, eu já sabia desde o inicio quem era você... Já sabia de todos os seus golpes, suas vitimas...

- E como? - perguntei espantada.

- Você é uma golpista, eu sou um golpista. Deste modo, obviamente que eu deveria saber meus concorrentes de trabalho... Ou você não conhece nenhum outro golpista?

- Mas... Mas... - eu não sabia o que falar - É claro que eu conheço outros golpistas, mas não imaginei que você fosse um, e nem nunca ouvi seu nome no meio dos golpes.

- Eu sou discreto. Sou um golpista particular e cobro um preço muito alto pelos meus golpes. Costumo sempre ter os mesmo clientes e só aceito novos trabalhos quando existe recomendação de clientes antigos.

- Que lástima! Você fala como se fosse o golpista do ano e tivesse ganhado o prêmio de melhor ator por ser tão mentiroso! - falei inconformada.



Meu coração batia normalmente. Não sei, mas descobrir que ele era como golpista como eu, fez parecer que as coisas eram muito mais fáceis. Parte de mim queria agarrá-lo e pedir para fazer parte dos golpes dele e outra parte queria sair correndo e torná-lo meu maior inimigo.

- Eu também não gosto de morenas. Gosto de loiras. Mas você nem isso percebeu - ele riu.

- Não vá pensando que irei cortar meu cabelo ou ficar loira apenas para agradar você!

- E quem disse que eu quero que me agrade? Viu? Eu sabia que você estava apaixonada, louca e extremamente atraída por mim.

- Gabriel, pare o carro agora! -  eu gritei.

- Você é louca? Estou no meio de um viaduto!  - ele retrucou.

- Pare o carro!

- Não!

- Pare agora Gabriel! - gritei novamente - Estou falando sério!

- Não posso e não vou parar o carro Margareth!

- Não vai? - perguntei.

Antes que ele pudesse responder puxei o freio de mão e o carro parou rapidamente. Com a força do carro bati a cabeça no vidro e é claro que eu pouco me importei. Abri a porta e sai andando no meio do viaduto.

Gabriel desceu do carro e eu só o ouvia gritando meu nome. Ele não correu atrás de mim, mas gritou até o momento em que um carro passou e arrancou a porta do carro dele. A última coisa que eu o escutei dizer foi Filha da pu... E continuei minha caminhada.

Que decepção! Gabriel era exatamente como eu... O mesmo gênio, a mesma vontade de se vingar, o mesmo egocentrismo misturado com luxúria... A única coisa que nos separava era o fato de sentir algo por ele enquanto ele não sentia nada por mim.



Acordei na manhã seguinte com os pés inchados e doloridos. Não gosto de andar na rua de salto, muito menos andar um quilometro e meio em um viaduto cheio de carros e quase sendo atropelada, mas não interessa, cheguei em casa viva, com ódio e um pouco triste.

Fui para a cozinha e senti um vento frio nas costas. A janela estava aberta. Não me lembrava de tê-la deixado deste jeito na noite passada. Fui até a janela e fechei-a. Uma mão gelada tocou meu ombro e eu pulei de susto.

- Sra. Maggie!  disse uma voz amigável.

- Louis! - gritei e o abracei - Quase morri de susto!

- É...  - Louis estranhou o abraço e recuou.

- Desculpe-me... Esqueci que você não gosta muito de abraços - abri um sorriso e me afastei -  O que faz aqui Louis?

- Pressenti que você tinha voltado a ser como antes...

- Como pressentiu?  - perguntei espantada - Não voltei!

- Voltou sim Maggie... Vi você chegando em casa e reclamando de um cara que eu mal conheço chamado Gabriel.

- Você está me espionando?

- Estou...

Antes que ele pudesse completar interrompi.

- Mas como assim? Como sabe que briguei com o Gabriel e que ele foi um crápula comigo?

- Sra. Maggie... Eu conheço Gabriel!

- Conhece? Louis... Não minta para mim!

- Gabriel conviveu comigo alguns anos e acho que agora é a hora de contar a você toda verdade...

- Verdade? Que verdade? - comecei a ficar confusa e minhas mãos gelaram - Louis! Do que você está falando? Porque está me olhando com essa cara?

- Gabriel é meu parente... Um parente próximo eu diria, mas alguém que eu convivi em certa época e nem deve se lembrar bem... - Louis pegou na minha mão - Gabriel é meu neto... A tradição de ser golpista está há anos na nossa família.

- Neto? Seu neto? - eu engasguei  - Então ele sabe que você trabalha para mim?

- Não Maggie! Não vejo Gabriel desde que ele tinha 12 anos de idade. Eu fugi. Larguei minha filha pouco tempo antes de Gabriel completar 13 anos. Ele não sabe onde vivo, nem o que faço e muito menos se estou vivo. Não se preocupe!

- Mas ele não tem curiosidade em saber? E sua filha? Por onde anda? Porque a deixou?

- O pai do Gabriel não era o marido que minha filha merecia ter... Quando Gabriel tinha seus 10 anos, eu discuti diversas vezes com meu genro. Tinha alguns dias que eu chegava em casa e via minha filha com hematomas e arranhões pelo corpo. No começo ela dizia que tinha batido em algum lugar, mas com o tempo as marcas foram aumentando de tamanho e quantidade. Resolvi então instalar algumas câmeras. Na época gastei quase todo o meu dinheiro com isso, e enfim descobri que o pai de Gabriel batia nela.

“Ele não era alcoólatra, nem bravo e muito menos mal educado. Era bem sucedido na empresa onde trabalhava e conseguia manter a família sem nenhum problema. Nunca entendi como ele pode e porque ele batia na minha filha... Talvez ele tivesse prazer em fazer isso ou era algum psicopata. Não sei! Só sei que me dava agonia ver minha filha sofrer e meu neto assistir a tudo aquilo.”

“Um dia eu não aguentei e fui encontrar com ele na hora de saída do trabalho. Falei para irmos tomar um café para discutir algumas reformas que eu queria fazer no quarto de Gabriel. Diferente da mulher, ele nunca encostou um dedo em Gabriel. Mas continuando... Levei-o até uma cafeteria e conversamos por algumas horas. Esperei anoitecer e pedi para que ele me levasse até a estrada Scottland porque eu queria respirar um pouco de ar puro antes de ir para casa.”

“Ele obedeceu e me levou até lá. Quando descemos do carro, fingi ter visto algo na floresta e corri gritando pelo nome dele. Ele veio atrás de mim. Em certo momento, fiquei por trás dele e o empurrei. Não sei de onde tirei forças, mas bati tanto naquele crápula que até hoje me lembro de cada soco e cada marca de sangue que deixei na minha blusa. Não pense que o matei, porque não fiz isso por pouco, mas gritei em alto e bom tom para ele nunca mais aparecer na frente da minha filha ou do meu neto.”

“Voltei para a casa a pé e ele não me seguiu. Desde então nunca mais apareceu na casa e até hoje não tenho notícias dele. Apenas observo Gabriel de longe e não sei nem como está minha filha... Nunca mais a vi.”

- Louis... Não acredito! - eu ainda estava chocada - Mas e sua filha? Porque você não a viu mais?

- Um tempo depois Luiza (minha filha) descobriu o que eu fiz e foi contra isso. Disse que eu estava tirando o pai de Gabriel da vida dele, mas na verdade eu sabia que apesar de apanhar ela era louca e apaixonada por ele. Desde então saí de casa e nunca mais voltei. E preciso da sua ajuda!

- Mas como posso ajudar? Não entendo!

- Preciso que converse com Gabriel, que volte a encontrá-lo! Preciso que o traga aqui, preciso vê-lo e abraçá-lo. Dizer os meus motivos e reencontrar minha filha.

- Mas Louis... Ele é como eu, não posso ir atrás de quem é como eu. De quem é golpista.

- Margareth, deixe de ser idiota! - ele gritou e eu parei por um instante - Ele não é como você! Ele é um golpista... Mas é o homem que você ama e isso muda tudo! Preciso de você! Da sua ajuda... Deixe de ser orgulhosa uma vez na vida, por favor?

Eu engoli em seco e não respondi. Eu sabia que Louis estava certo, assim como sabia que não queria encontrar Gabriel de novo porque ele iria me fazer uma porção de perguntas, mas precisava ajudar Louis, precisava retribuir toda a ajuda que ele já havia me dado.




Capitulo 10 – Channel.
Depois de escutar toda a história que Louis disse, ficou difícil para dormir. Passei a noite pensando na filha de Louis, como ela havia feito para sustentar um filho sozinha, como ela havia se sentido e por um instante me veio à cabeça minha mãe. Não sei o que aconteceu com ela depois que fugi de casa, não sei se meu pai a largou ou se continuou fazendo o que sempre fez, bater nela ou se ele até mesmo morreu. Mas imaginei o que poderia ter acontecido se eu não tivesse ido embora, se não tivesse “esfaqueado” meu pai. Será que eu seria feliz? Será que minha vida teria mudado? Ou será que até mesmo eu continuaria com todos os traumas que tenho até hoje?
Adormeci pensando em mil coisas e acordei com Louis me puxando o pé na cama. Abri os olhos e quase o falei mal por estar muito cansada. Alguns dias haviam se passado, e eu me isolei do mundo, até que Louis foi me incomodar.
- Louis! – gritei.
- Sabe que horas são Sra. Margareth?
- Não e nem quero saber! – virei-me de bruços na cama e cobri minha cabeça com um travesseiro.
- Hora de você acordar e colocar o plano em ação Margareth!
- Plano? Que plano?
- Procurar Gabriel, trazê-lo até mim e viverem felizes para sempre.
- Qual parte do “Olá, eu sou uma golpista e não posso ir atrás de outro golpista” você não entendeu Louis?
- Não se faça de burra. O café esta servido e eu estou lhe esperando na sala.
Por um momento quis estrangular Louis. Mas só de pensar que aquela mesa deveria estar cheia de coisas boas. Levantei-me e coloquei meu roupão com pressa. Fui até a mesa e encontrei um pedaço de bolo.
- Cadê a mesa que você sempre faz Louis? – perguntei.
- Pensei que não quisesse tanto... E além do mais, enquanto não falar com Gabriel vai ser o que terá de mim...
- Nossa! Valeu! – sentei-me e comi o único pedaço de bolo assim mesmo, fome não me faltava.
Depois de Louis insistir e eu parar pra pensar. Percebi que realmente devia algo para Louis... Uma vez que ele já havia me ajudado tanto desde que o conheci. Liguei para Gabriel esperando ouvir xingos ou que até não me atendesse.
- Oi – ele atendeu.
- Pensei que tivesse trocado de número! – exclamei.
- Na verdade é meu telefone particular. Quem é? – perguntou-me.
Como assim ele não sabia quem era? Espera... Gabriel me passou o telefone particular?
- Margareth Milles...
- Sabia que não ia aguentar e iria me ligar – ele riu – Por falar nisso... É bom que acerte comigo o valor do conserto da porta do meu carro Ok?
- Como se dinheiro fosse importante para mim... E eu só te liguei justamente pra pagar essa porcaria de porta do teu carro velho.
- Ele é uma raridade... E a porta vai ficar bem cara quando estiver pronta.
- Não tem problema Gabriel, eu pago! – exclamei.
- Ok então. Golpista rica.
- Para de ser irônico! – parei por um instante e falei – Preciso te encontrar para acertarmos isso.
- Na verdade é só você depositar na minha conta o valor. Eu te ligo pra falar quanto é que ficou o conserto.
- Não Gabriel! Você é um golpista e golpistas não acreditam em golpistas! – eu ri – Me encontre na minha casa...
Passei o endereço e Gabriel pareceu espantado por eu querer recebe-lo em minha própria casa, mas aceitou. Convidei-o para vir na hora do jantar. Assim, eu prepararia algo para comermos e conversarmos e depois chamaria Louis para resolver os assuntos dele com o Gabriel.
O problema era o que eu ia sentir quando visse Gabriel. Por momentos tive raiva depois que o abandonei no meio da ponte... Mas em pensamentos durante a noite senti saudade dele. Mesmo sendo um golpista nojento e muito pior do que eu...
Antes que a noite chegasse, saí, fui ao cabeleireiro, deixei meu cabelo castanho mesmo, nada de loiro mais para mentir as coisas para Gabriel. Se ele fosse gostar de mim – o que ainda é praticamente impossível – seria morena e sem lentes. Comprei um vestido Channel desejando que meu cartão estourasse, mas não foi dessa vez.
Voltei para casa e ao entrar encontrei Louis mais elegante do que nunca. Smoking preto e deslumbrante. Abri um sorriso, o cumprimentei e fui até meu quarto terminar de me arrumar. Tomei meu banho, descansei, tentei colocar todas as ideias ruins pra fora da minha mente, até que algumas vezes Scott me veio à cabeça.
Ele era tão estranho. E eu não havia parado pra pensar em como ele sobreviveu ao veneno que injetei nele. Será que foi no lugar errado? Talvez. Eu muito animada em arrancar o que ele mais queria e acabei acertando errado... Só pode ser.
Olhei para o relógio e já eram quase sete horas da noite. Saí do banho correndo para terminar de me preparar. Maquiei-me de forma bem simples, mas com um delineador preto nos olhos, rímel e sombra dourada. Um batom vermelho para finalizar e pronto, era só colocar o vestido e meus sapatos.

Ouvi Louis me chamando assim que terminei de me arrumar. Fui até a sala e me deparei com uma mesa incrível, linda, porém à luz de velas.
- O que é isso Louis? – perguntei.
- Isso o que? Você não gostou?
- Tirando as velas!
- O que tem as velas Margareth?
- Fazem essa porcaria de jantar parecer um encontro!
- Para que tanto drama? Eu vou aparecer no meio do jantar pra acabar com o clima de vocês mesmo Senhora. Não se preocupe, tema romântico só será no início.
- Certo... – comecei a pensar nas coisas que Louis havia me falado sobre não me apaixonar antes de contar sua história com Gabriel – Louis posso te perguntar algo?
- Claro Senhora!
- Porque quando eu estava me apaixonando por Gabriel, você meio que foi contra e a favor ao mesmo tempo?
- Porque eu conheço meu neto!
- Como assim conhece? Você conviveu com ele apenas 10 anos... – fiquei confusa.
- 12 anos na verdade... – Louis suspirou – O que não significa nada para alguns, mas já foi o bastante pra saber das atitudes dele quando fosse mais adulto.
- E quais seriam as atitudes? – a campainha tocou.
- Acho que esta conversa vai ter que ser terminada mais tarde...

Droga! Agora eu queria entender, e é claro, não podia ao mesmo tempo. Gabriel iria me matar depois que soubesse que o trouxe até o avô dele... Na verdade, não sei se ele iria gostar ou odiar. É estranho... Difícil de entender.

Capitulo 11 – Jantar familiar

Minha vontade era de abrir a porta e falar para os dois se resolverem sem mim. Difícil porque quando olhei para trás Louis já não estava mais na sala. Caminhei até a porta e abri. Gabriel me olhou dos pés a cabeça e eu fiz o mesmo. Terno azul marinho, gravata cinza. Sim, ele estava extremamente delicioso daquele jeito. Minha vontade era de deixa-lo nu e irmos para o que interessava. Mas não ia ser dessa vez.
- Seja Bem Vindo Gabriel! – falei quando abri a porta.
- Obrigado... Posso entrar?
- Claro, fique a vontade. – a nossa ironia era tão grande que dava até vontade de rir.
- Apesar de ficar em um lugar ruim, até que sua casa é bonitinha – disse ele observando a casa enquanto entrava – Dá pra sobreviver aqui?
- Na verdade dá.
- Pensei que você estivesse rica Margareth.
- Na verdade só estou aqui porque estou esperando minha nova cobertura ficar pronta.
- Sério? Uma cobertura? – ele riu – Incrível! Onde irá ficar?
- Não viemos falar sobre minha cobertura ou sobre meu novo endereço, podemos ir ao que realmente interessa? – caminhei até a mesa esperando que ele me seguisse.
- Claro! Que indelicadeza a minha, não? – ele disse enquanto puxava a cadeira para que eu me sentasse – Sente-se!
- Obrigada! – sentei-me – Então Gabriel, espero que goste da comida.
- Engraçado ela já estar servida. Onde estão seus empregados?
- Na verdade de folga. – eu ri – Não sou tão ruim como pareço.
- Claro! Quem diria não? Só é má quando esta comigo. – ele abriu um sorriso irônico.
- Não fui má com você! É simples, eu te perguntei coisas e você não me dava respostas – eu sorri – logo, não merecia minha compaixão.
- Você continua a mesma...
- E você o mesmo de sempre... Fraco, sem talento! – Exclamei enquanto me servia.
- Fraco? Sem talento? – ele gargalhou – Não foram essas as suas palavras depois que transamos um dia desses.
Eu calei-me. Maldito! Onde ele queria chegar? Ficar relembrando de como ele me fez gozar e pirar não era o melhor assunto para aquele jantar, pior ainda porque Louis estava ouvindo tudo. Depois de servirmos o jantar, comemos e ficamos calados por um bom tempo, até que Gabriel ficou brincando com seu copo de vinho e me perguntou.
- Você realmente não sente nada por mim? – ele falava enquanto passava o dedo na borda do copo de vinho.
- O que você quer dizer com sentir? – tentei escapar.
- Não se faça de ingênua... Você não é nem um pouco ingênua! – ele sorriu.
- Sinto raiva, ódio, nada muito diferente do que você já tenha imaginado.
Certo... Raiva e ódio? Eu poderia ter gritado pra ele que sentia amor, tesão, saudade, vontade, prazer e mais um bilhão de coisas. Mas eu não podia dar todo esse privilégio para ele.
- Amor e ódio então? – ele perguntou.
- Eu não usei a palavra amor... – estremeci.
- Mas pensou... – ele percebeu que a garrafa de vinho havia acabado – você tem mais desse vinho? Pelo menos você tem bom gosto para bebidas...
- Claro, tenho na cozinha! Vou pegar para você. – respondi gentilmente tentando fugir do “você pensou em amor Margareth” que ele quis dizer.
- Não! Fique ai, eu pego, não se incomode. – ele sorriu e levantou-se.
- Está no canto da cozinha, a minha adega.
- Certo. – ele foi andando até a cozinha.
O que eu disse? O que eu fiz? Será que dei todas as pistas de como eu estava me sentindo? Eu devia ter me comportado diferente. Que droga! A essa medida do tempo eu já tinha quase entregado tudo com o meu nervosismo. E só fiquei esperando ele trazer o vinho, que pareceu demorar um século. De repente escutei um barulho de garrafa quebrando e gritei “Gabriel? Está tudo bem?” ele não me respondeu.
Levantei-me da mesa preocupada e peguei a minha arma de baixo da cadeira. Fui andando lentamente até a cozinha e me deparei com a garrafa na mão de Louis.
- Mas o que é isso? – perguntei.
- Está feito! Agora você está livre Sra. Maggie! – respondeu Louis.
- Livre?
- Ele deve ficar apagado por uns dez minutos, então você tem esse tempo para dar um fim nele.
- Louis! O que está acontecendo? Ele é seu neto, você não ia conversar com ele? Porque fez isso? – eu só conseguia perguntar e querer respostas – E porque diabos você “apagou” ele?
- Não acredito que com tantos anos de golpes você realmente acreditou em toda aquela história. Eu jurava que você era um pouco mais esperta a ponto de ficar brincando sobre tudo aquilo que disse. – Louis abriu um sorriso e apontou uma arma para mim.
- Você só pode estar brincando.
- Abaixe a arma... – ele olhou para mim e atirou no canto da porta – Ande! Abaixe!
- Certo! Não precisa estressar... – eu joguei a arma no chão – Então você quer que eu o mate? Ok, eu faço!
- Você acha que me engana Margareth? – ele riu – Acha mesmo? Você o ama!
Louis caminhou rapidamente até mim e apontou a arma para minha cabeça. Ótimo! A única pessoa que eu pensei que pudesse confiar acabará de me apunhalar pelas costas. Mas que estúpida! Tudo por um momento me pareceu tão obvio e eu deixei passar. O que eu faria então? Ele me levou até o quarto e antes que eu pudesse pensar tudo ficou escuro.

Acordei com a cabeça doendo. Eu parecia meio tonta e ainda tentava me encontrar em que local exatamente eu estava. Pisquei meus olhos umas cem vezes até perceber que estava no canto do meu quarto e minha cabeça sangrava. Ótimo! Mais uma cicatriz para coleção. Olhei para frente e lá estava Louis. Sentado em uma cadeira olhando e sorrindo, como se me ver ali, quase desmaiada o desse prazer.
- Qual é o seu joguinho hein? – perguntei.
- Não tem jogo. Você foi tola o bastante para se apaixonar pelo golpista que matou toda a minha família.
- Sua família? – me espantei – Não venha com essa de contar mais histórias mentirosas para mim.
- Não preciso contar se você não quiser...
- Agora desembucha. – eu passava a mão na cabeça – Posso lavar isso pelo menos?
- É obvio que não! Enfim, o que você quer saber?
- Porque ele matou toda a sua família?
Louis levantou-se e se aproximou de mim. Agachou, colocou a mão no meu queixo segurando-o e sorriu.
- Matou minha mulher, filhos, mas só sobrou uma das minhas filhas, que havia fugido quando mais nova.
- Certo! Então ele não matou todos!
- Exceto você Margareth Milles... Qual é a sensação de ver seu pai tanto tempo depois? – ele sorriu e encostou a arma na minha cabeça.